sexta-feira, 30 de novembro de 2018

AVALIAÇÃO: 3/5
EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS, CORTESIA
ISBN: 97885359,0856
GÊNERO: ROMANCE, DRAMA, LITERATURA INGLESA
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 288 SKOOB

O que sem dúvida me despertou o interesse pelo título, foram as palavras do falecido jornalista americano Christopher Hitchens alegando que essa era a obra-prima de Ian McEwan, isso, aliado a um tema tão desolador quanto o desaparecimento de um filho, pesaram na minha decisão.

O enredo está dividido em apenas nove capítulos e no início de cada um podemos ler uma frase do “Manual autorizado de puericultura”, publicação fictícia que tem haver com a própria trama, mas só será explicada mais à frente durante a leitura.

Quanto à diagramação não há defeitos, a capa é agradável e remete ao tema, fonte confortável à leitura…

Stephen Lewis sente-se um homem de sorte. Ao contrário dos colegas formatos em literatura inglesa que lecionam ou estão desempregados, ele se torna um bem-sucedido autor de livros infantis, é casado com uma bela violinista e está curtindo seu papel de pai da pequena Kate. Porém, num sábado ao ir até o supermercado enquanto sua esposa permanece na cama, sua filha de apenas três anos desaparece, o que acaba completamente com sua existência – vida conjugal, profissional e pessoal passam a ser irrelevantes.

“A maior parte desse tempo disponível ele passava de cueca, estendido no sofá diante da televisão, bebericando melancolicamente uísque sem gelo, lendo revistas de trás para a frente e assistindo às Olimpíadas. À noite ele bebia mais. Comia num restaurante da região, sozinho. Não procurava os amigos. Nunca retornava as chamadas registradas na secretária eletrônica. Em geral não se importava com a imundície do apartamento, com as avantajadas moscas pretas em suas rondas sem pressa. – página 13”

Esse enredo tinha tudo para dar certo, no entanto, o linguajar de McEwan  e o ritmo arrastado com que foram se desencadeando os fatos, fatos estes que eram bastante desinteressantes, não me animaram, fazendo com que o ritmo de leitura fosse delongado.

Com o afastamento e posterior abandono da mulher e uma vida sem sentido, a única tarefa com que não deixa de envolver-se mesmo que superficialmente é a participação no Subcomitê de Leitura e Escrita, uma organização que discute temas voltados a Assistência à Infância. Essas reuniões são descritas de forma tão tediosa que é impossível não incorporar a agonia vivida por Lewis nos anos inertes de sofrimento pela perda da filha.

“Stephen chegou tarde ao evento e saiu cedo. Desde o Natal, as sessões do comitê tinham deixado de representar um refúgio de tempo organizado num caos de dias perdidos.” – página 199

Há alguns personagens secundários, como Charles Darke, um brilhante editor que depois de publicar o primeiro título infanto juvenil de Lewis, transforma-se em um amigo íntimo. A história mostra sua mudança de atuação profissional, voltando-se do meio literário para a política, enfatiza seu relacionamento em um casamento aparentemente de fachada com uma mulher mais velha, a cientista Thelma, sempre disposta a ouvir e apoiar Stephen e o modo conturbado como inesperadamente ele larga a carreira política e vai viver recluso com a esposa num lugar ermo.

Os pais de Lewis, Claire e Douglas também tem seu momento de destaque no enredo, mas nada que chegasse a emocionar, mas que dão certa sensibilidade à vida, tempo, tragédia, intimidade e envelhecimento.

“Nada de importante aconteceu. Ele achou que seu pai estava prestes a falar. Na posição desconfortável em que se encontrava, sua mãe dobrou a cabeça para o lado preparando-se para ouvir. Stephen também havia adotado esse hábito. Podia ver o rosto dos dois, as expressões bem marcadas de ternura e ansiedade. Era o envelhecimento, as essências de cada um resistindo enquanto os corpos se deterioravam. Ele sentiu a urgência do tempo que se contraía, das tarefas inconclusas. Havia conversas que ainda não tiver com eles e para as quais sempre acreditou que haveria tempo.” – página 60

Enfim quando pensei que avaliaria o livro com apenas uma estrela, chegam os dois últimos capítulos que foram surpreendentes a ponto de que eu quase desse quatro estrelas para a obra, mas diante de tudo, consegui chegar a um consenso.

Para finalizar, não posso deixar de elogiar Ian McEwan, apesar do uso de palavras difíceis e de uma narrativa lenta e enfadonha, ele conseguiu retratar com profundidade a dor, a perda, a separação, a desolação de uma família e a desintegração do ser humano diante da dúvida e do desaparecimento de um ente querido.

“Tráfego, chuvinha ininterrupta, gente indo às compras esperando na zebra para atravessar, incrível que houvesse tanto movimento, tanto propósito o tempo todo. Ele próprio não tinha nenhum. Sabia que não iria. Sentiu que o ar escapava lentamente de seus pulmões, sem um som, o peito e a espinha dorsal se encolhendo. Quase três anos e ainda empacado, ainda aprisionado no escuro, envolto em sua perda, moldado por ela, intocado pelas correntes comuns de sentimento que se moviam bem acima dele e pertenciam apenas a outras pessoas.” – página 166

Apesar de tantas angústias vividas pelo personagem principal e sua esposa Julie, o final é reconfortante. E saber que até as descrições aparentemente mal-sucedidas do autor se encaixam na conclusão e fazem todo o sentido é mais um ponto positivo.

“A perda os havia posto em caminhos separados. Nada havia para ser compartilhado (…) Ficar junto exacerbou o senso de perda dos dois. Ao sentar-se para comer, a ausência de Kate era um dado que não podiam mencionar nem ignorar.” – página 68

Para quem quer ler sobre o tema, admito, realmente é uma obra-prima e para os que assim como eu gostam de um desafio literário, recomendo.

Sobre o autor
Nara Dias
Nara Dias 32 anos (22/12) – São Paulo Pós graduada na USP em Ética, valores e cidadania na escola, atua como professora de informática e robótica para crianças de 4 a 11 anos. Também com especialização em Libras - Língua Brasileira de Sinais, participa da comunidade surda da região onde mora, na Baixada Santista. Seu perfil no Skoob com mais de 1200 livros lidos, mostra sua paixão pelo gênero infanto-juvenil, onde capa, ilustração e tipo de impressão interferem muito em suas escolhas.


Deixe uma resposta

  1. terça-feira, 4 de dezembro de 2018.

    A trama pode ser incrível, mas se a leitura é arrastada ou tem muitas palavras difíceis eu saio correndo para longe, não adianta. Desanimei de saber como é essa leitura, então não pretendo ler a obra, infelizmente. Mas, prefiro ler livros que realmente me empolguem do que ficar presa em algo que não anda… :/
    beijos

  2. terça-feira, 4 de dezembro de 2018.

    Oi, Nara!
    Que capa bonita! Ainda não conhecia o livro, mas a história me pareceu bem triste, e eu geralmente gosto de histórias tristes. Acho que haveria uma chance de eu gostar dessa. É uma pena que tenha sido uma leitura arrastada, mas penso que talvez isso contribua para sentirmos a angústia do protagonista que vê os dias passando após o desaparecimento de sua filha. Fico feliz que o final apresentou uma boa conclusão. Não tenho certeza se eu o leria, mas gostei da dica. Beijos!

    Jéssica Martins
    castelodoimaginario.blogspot.com

  3. quinta-feira, 6 de dezembro de 2018.

    Olá,
    Este livro realmente parece ser daqueles bem lentos, o que não é tanto um problema ainda mais se tratando de um assunto tão triste e dramático. Mesmo assim tudo precisa estar justificado e bem ‘amarradinho’ no final, o que acho que foi o caso aqui. Então até que fiquei com vontade de ler sim.

  4. domingo, 9 de dezembro de 2018.

    Olá Nara, tudo bem? Eu sempre leio resenhas maravilhosas sobre as obras do Ian MacEvan mas, ainda não tive a oportunidade de conhecer a escrita do autor. E, lendo a sua resenha pude perceber que apesar, da leitura ter sido lenta e com um linguajar diferente ao que você está acostumada, ele conseguiu te surpreender.

    Eu não me importo com leituras mais lentas ou com histórias muito detalhadas, algumas vezes até prefiro mas, a história precisa ser bem desenvolvida e com um final maravilhoso para compensar o meu tempo de leitura. Gosto muito de ler as obras do Dostoiévski que são muito lentas em algumas partes mas, sempre me surpreendem no final.

    Gostei muito da sua resenha e, fico feliz que tenha trazido essa indicação para os seus leitoras.
    Beijos e Abraços Vivi
    Resenhas da Viviane

  5. domingo, 9 de dezembro de 2018.

    Olá Nara, tudo bem? Eu sempre leio resenhas maravilhosas sobre as obras do Ian MacEvan mas, ainda não tive a oportunidade de conhecer a escrita do autor. E, lendo a sua resenha pude perceber que apesar, da leitura ter sido lenta e com um linguajar diferente ao que você está acostumada, ele conseguiu te surpreender.

    Eu não me importo com leituras mais lentas ou com histórias muito detalhadas, algumas vezes até prefiro mas, a história precisa ser bem desenvolvida e com um final maravilhoso para compensar o meu tempo de leitura. Gosto muito de ler as obras do Dostoiévski que são muito lentas em algumas partes mas, sempre me surpreendem no final.

    Beijos e Abraços Vivi
    Resenhas da Viviane

  6. segunda-feira, 10 de dezembro de 2018.

    Oi Nara, já tentei ler algumas coisas desse autor e infelizmente nao funcionou comigo. Como você disse, a obra em alguns momentos é bastante enfadonha e isso me desanimou demais, o que é uma pena.

  7. segunda-feira, 10 de dezembro de 2018.

    Olá, tudo bom?
    Vi essa capa em alguns lugares e não sabia do que se tratava essa obra, no entanto, fiquei super curiosa com esse final, que praticamente salvou sua leitura. Apesar desse início arrastado, do uso de uma linguagem mais complicada e de acontecimentos que não prendem tanto no início, saber o quanto esse final foi surpreendente e bem escrito fez com que esse livro entrasse para minha lista de futuras leituras. Dica mais que anotada!
    Beijos!

  8. terça-feira, 11 de dezembro de 2018.

    Olá Nara, eu não conhecia esse livro, mas o enredo me deixou bastante curiosia, acho que não li ainda nenhum livro com esse tema, então é uma pena que na maior parte da leitura o autor não conseguiu deixar o leitor empolgado =/ Vou anotar a dica e dar uma chance quem sabe em breve, mas sem muitas expectativas =)

  9. terça-feira, 11 de dezembro de 2018.

    Não conhecia essa obra para ser sincera, mas eu gostei de saber que foi tão bem recomendada e que você gostou, mas confesso que não é uma leitura que me vejo fazendo fazendo pelo menos por hora, mas mesmo assim, muito obrigada pela dica.

    Beijos

  10. terça-feira, 11 de dezembro de 2018.

    Olá, tudo bem Nara?

    Eu tenho muita vontade de ler “A criança no tempo”, parece ser uma leitura incrível, meus amigos super elogiam essa obra do Ian McEwan e a sua resenha me deixou ainda mais curioso para conhecer a escrita do autor.
    Abraço!

  11. quarta-feira, 12 de dezembro de 2018.

    Oi! Me lembro de quando li pela primeira uma resenha sobre esse livro e fiquei pensando, como o autor soube escolher um tema tão pesado como o desaparecimento de uma criança e de que como essa tragédia pode afetar sem solução e limite a vida de tantas outras pessoas. Concordo com você quanto ao desafio da leitura, encarar um livro assim deve ser mesmo desafiador. Obrigada pela dica!

    Bjoxx ~ http://www.stalker-literaria.com

  12. quinta-feira, 13 de dezembro de 2018.

    Li um livro deste autor, Reparação e foi um dos melhores da minha vida, por isso estou bem empolgada pra ler este aqui também. Apesar de realmente ter uma narrativa menos ritmada e palavras mais rebuscadas, acho que a originalidade dele é incrível.
    beijos

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