AVALIAÇÃO: 4/5 ESTRELAS
EDITORA: INTRÍNSECA, CORTESIA
ISBN: 9788551002773
ANO: 2018
PÁGINAS: 352
SKOOB

A forma da água foi uma história que ganhou destaque no início desse ano, com o lançamento de seu filme e por suas respectivas indicações ao Oscar, recebendo a estatueta de melhor filme. Ouvi comentários de sua originalidade e que era algo pouco convencional, causando em mim certa curiosidade. Na mesma época, saiu a versão da história em formato de livro, o que, para mim, como qualquer leitor, virou um motivo a mais para conhecer a tão falada história. Quando surgiu a oportunidade, não imaginei que a leitura seria tão arrastada. Quase um mês depois consegui terminá-lo. E, dias depois disso, ainda não amadureci um posicionamento consistente da história. Espero que com essa resenha consiga mostrar os meandros e pormenores de tudo isso.

Estamos em 1962 e, para Elisa Esposito, todos os dias são iguais. Muda e órfã, ela leva uma vida monótona em seu emprego de faxineira na Occam, um centro de pesquisas espaciais em Baltimore, Estados Unidos. Se não fosse por Zelda, sua melhor amiga, e Giles, seu gentil vizinho, mal teria forças para sair da cama. Até que, certa noite, ela vê em um dos laboratórios algo que jamais deveria ter visto: o recurso mais precioso e inteligente da Occam. Um homem-anfíbio, capturado na Amazônia, chamado de deus Brânquia pelo povo local e que será estudado e utilizado em prol dos avanços tecnológicos do país durante a Guerra Fria.

O ser é assustador, mas também majestoso, detentor de uma linguagem própria e capaz de entender emoções. Juntos, mulher e criatura aprendem a se comunicar, e logo o afeto que surge entre os dois se transforma em amor, um amor que dará um novo sentido à existência de Elisa. No entanto, acontecimentos do destino podem atrapalhar a relação entre ambos, uma vez que o deus foi capturado para fins de guerra e, por isso, precisa ser dissecado e morto antes que os inimigos russos coloquem as mãos nele.

Antes mesmo de iniciar a leitura, já imaginava que seria devagar, mas não imaginava o quanto. Já conhecia o trabalho de Del Toro assistindo O labirinto do fauno e lembro de como aquele filme me deixou com certo incômodo, principalmente pela maneira que a narrativa era conduzida. Acreditei ser algo característico do próprio diretor, logo, já esperava algo semelhante em A forma da água, e foi justamente o que encontrei. Não vou dizer que seja algo ruim, mas, para quem não está acostumado (tipo eu), pode causar certo estranhamento, junto à necessidade de deixar a mente aberta para o que vier.

A leitura demora a engatar, principalmente por ter que situar o leitor no contexto e universo da história. Estamos falando da época da Guerra Fria, onde Estados Unidos e União Soviética lutavam pelo poderio do resto do mundo. Nesse sentido, ambas as potências procuravam maneiras de se armar uma contra a outra e aí entra o primeiro ponto positivo da história. A escolha da premissa dada pelo realismo mágico e uma criatura mitológica se mostrou algo que foge à norma e se torna original para mim, chegando ao próximo ponto que me chamou a atenção no livro: as relações humanas.

Muito mais que narrar o romance entre Elisa e o deus Brânquia, A forma da água mostra a personalidade humana na sua maior complexidade, como os indivíduos acabam se relacionando e como uma coisa tem influência na outra. O deus é o ponto chave da história e a partir dele conseguimos conhecer os outros personagens da história e construir um posicionamento sobre eles. Nesse sentido, a figura que mais me chamou a atenção foi o oficial Richard Strickland, responsável pela captura do deus na Amazônia e que, por causa disso, acaba se tornando uma pessoa extremamente diferente, o que reverbera em seu relacionamento familiar, principalmente com sua esposa Lainie. A construção do personagem me causou certo incômodo diante de suas atitudes, o que julguei ser propósito dos autores.

Do mesmo modo chamo atenção para a figura de Elisa. Você pode torcer o nariz diante de algumas cenas entre ela e o deus, pode não concordar com o romance entre eles, mas pelo menos eu consegui compreender o que surgira entre eles. Diante de tudo que acontecera com Elisa antes mesmo do início da história, eu consegui encontrar elementos que justificassem o relacionamento entre ela e a criatura, tais como a infância complicada, a dificuldade de se colocar e estar presente no mundo diante da sua condição. E é nesse quesito que Del Toro e Kraus se utilizam ao máximo na narrativa e que me fez querer ir adiante e gostar do livro como um todo.

Todo esse desenrolar culmina num ápice que, diante de tudo, foi algo meio hollywoodiano, próximo ao que ocorre em filmes de ação, além de apresentar um desfecho nem um pouco convencional, mas que mais uma vez faz sentido se considerar a história no geral. Terminei o livro sem saber se gostei ou não, tanto que quero ainda assistir ao filme e ver se consigo amadurecer ainda mais a minha avaliação. O que posso fazer é recomendar a história para quem tem interesse em sair de sua zona de conforto, mas atentando que deixe sua mente aberta e que o leia sem nenhum preconceito.

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


Deixe uma resposta

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: