quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

AVALIAÇÃO: 4,5/5
EDITORA: GALERA RECORD, CORTESIA
ISBN: 9788501110817
GÊNERO: JOVEM ADULTO
PUBLICAÇÃO: 2017
PÁGINAS: 378
SKOOB

Existem livros que nos passam despercebidos e existem livros como O ódio que você semeia, que trazem histórias fortes, com realidades que precisamos conhecer e que nos propõem reflexões muito importantes. Assim que bati o olho na sinopse do livro de Angie Thomas, fiquei com vontade de realizar a leitura. A história dialoga principalmente com o público adolescente, mas mesmo que você não faça parte dessa faixa etária, vale muito a pena dar uma chance ao livro.

Aqui, conhecemos a história de Starr, que se divide entre dois mundos. Ela é uma garota de 16 anos, negra, que mora em um bairro marginalizado, marcado pela disputa de gangues, com moradores que não encontraram muitas oportunidades na vida e muitas vezes acabaram na criminalidade. Seu pai é dono de um mercado da região e as condições da família permitem que ela e seus irmãos estudem em uma escola melhor, elitista, com poucas crianças negras.

Starr passa seus dias entre os dois bairros e as duas realidades e sente que não consegue ser ela mesma em nenhum dos dois. Na escola, ela precisa agir de acordo com o que é esperado dela: pacífica, tranquila, sem nenhum traço de contestação que a remeta ao gueto. Já no bairro onde mora, ela evita falar de seus amigos e namorado, que são brancos, para que seus dois mundos não colidam.

Tudo isso muda quando Starr está em uma festa no gueto e reencontra seu amigo de infância Khalil. Eles acabam fugindo juntos de um tiroteio e, enquanto ele está levando ela para casa, são parados por um policial branco na estrada. Starr sempre foi alertada sobre como agir com policiais. Mesmo sem dever nada à polícia, ela sabe que é preciso evitar movimentos bruscos, responder à tudo o que os policiais perguntarem, obedecer a cada pedido. Khalil parece não ter o mesmo entendimento sobre o assunto e um pequeno erro faz com que ele seja assassinado a sangue frio na frente de Starr. É a partir daí que tudo se desenrola.

Quando foi morto, Khalil não estava portando drogas em seu carro, não agiu contra o policial, não fez nada de errado. O seu erro foi a cor da sua pele. O preconceito, que é sempre tão velado, levou à sua morte. Starr é a única testemunha e agora precisa decidir até que ponto poderá se envolver na história e fazer justiça pelo amigo. Quando o caso começa a ganhar importância na imprensa, o peso dessa decisão fica ainda mais intenso.

Dividida, ela tem medo do que pode acontecer se se identificar como a testemunha, ao mesmo tempo em que não quer que a morte de Khalil seja apenas mais uma entre tantas. Conforme os dias vão passando, é evidente o quanto Starr amadurece. Seus dois mundos parecem estar prestes a ruir e ela precisa achar um jeito de equilibrá-los, ao mesmo tempo em que deve encontrar a sua voz. Essa é a palavra-chave da obra: “voz”. A obra mostra que independentemente de raça, religião, etnia, entre outros, cada um tem a sua voz e precisa se fazer ouvir. Por meio dela, é possível promover grandes transformações. E é isso que acontece na história.

Mesmo que a partir de pequenos atos, Starr passa a refletir sobre sua realidade e a de todas as outras pessoas negras que sofrem diariamente com o preconceito e perdem tantas oportunidades apenas pela sua cor de pele. Aos poucos, ela entende o conceito de Thug Life, imortalizado pelo rapper Tupac Shakur, que queria dizer “The Hate You Give Little Infants Fucks Everybody”, ou “O ódio que você passa para criancinhas fode todo mundo” e vê o quanto seu mundo é marcado pela injustiça.

O livro de Angie Thomas surgiu após os assassinatos que deram início ao movimento Black Lives Matter, com protestos em torno de negros mortos por policiais, e questões de discriminação racial, brutalidade policial, e a desigualdade racial no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos. A obra, um young adult, dialoga principalmente com o público mais jovem, promovendo desde cedo um debate que precisa ser ampliado.

Os personagens do livro são cativantes. Starr, ao mesmo tempo que se vê envolta à uma tragédia, passa por todas as fases da adolescência: os conflitos com os amigos, namorado e a própria família. O amadurecimento da personagem é notável e ela nos ensina muitas coisas. A família de Starr também é exemplar. Eles são o porto seguro que ela precisa e estão presentes nos momentos mais difíceis. Claro que todos têm seus defeitos e qualidades, o que torna a história ainda mais incrível. É impossível não torcer por cada um deles.

O ódio que você semeia tem momentos tristes, mas é também uma história de transformação e mostra que é preciso, cada vez mais, colocar a temática em pauta. É um livro importantíssimo, que deve ser lido e trabalhado pelo maior número de pessoas possíveis.

Sobre o autor
Camila Tebet
Camila Tebet Camila Tebet, 24 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


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