quinta-feira, 23 de novembro de 2017

AVALIAÇÃO: 4/5 EDITORA: SEGUINTE, CORTESIA ISBN: 9788555340420 GÊNERO: DISTOPIA, FICÇÃO CIENTÍFICA PUBLICAÇÃO: 2017 PÁGINAS: 384 SKOOB

Eric Novello é um jovem autor brasileiro, escreveu histórias como “Exorcismos, amores e uma dose de blues” e “Neon Azul“. Tive a oportunidade de ler, alguns anos atrás, “Exorcismos“, pelo qual me encantei pelo universo do autor, que transforma São Paulo num misto de mistérios e magia. Quando foi anunciado Ninguém nasce herói, publicado pela Editora Seguinte, fiquei extremamente interessado pela sinopse, fazendo com que quisesse realizar a leitura o quanto antes. Isso acabou demorando um pouco, mas não desmereceu quando a fiz.

O livro se passa num futuro possível do Brasil, com um fanático religioso no poder, que conseguiu chegar a presidência por meio de manobras políticas. O medo e o terror se instauram nas ruas do país, fazendo com que surjam grupos de ódio que perseguem negros, homossexuais, transexuais. Diante disso e com medo de perder apoio da grande população, o Escolhido, conforme ficou conhecido o governante, assina o Pacto de Convivência, que estipulava o fim da perseguição às minorias. Porém, não são todos que acreditam nesse documento. Dentre elas encontra-se Chuvisco, protagonista da história. Jovem recém-formado, mora em São Paulo tentando levar a vida como tradutor. O que pouca gente sabe é que desde criança ele lida com catarses criativas: momentos em que sua imaginação toma conta, fazendo com que ele enxergue coisas que talvez não estejam realmente ali – uma chaleira estranha, uma revoada de borboletas, ou até mesmo uma tartaruga gigante.

Nos últimos tempos, Chuvisco conseguira controlar as catarses, graças a ajuda do dr. Charles, mas diante da situação de instabilidade que se instaura no país, elas podem voltar a atormentar a vida do garoto. O ponto máximo de tudo isso é quando ele acaba presenciando um garoto trans sendo espancado na rua, fazendo com que sua desconfiança sobre o pacto seja ainda mais correta. Chuvisco ajuda o garoto e cada um segue seu caminho, mas sua presença marca a vida do protagonista, fazendo com que ele o procure. No entanto, só sabe o seu nome: Júnior. Sua busca irá cruzar com o Santa Muerte, um grupo de mídia alternativa que procura denunciar as falcatruas e as maldades realizadas pelo governo. Chuvisco se interessa em participar do grupo, mas acredita que esteja indo para um confronto armado, causando certo medo.

Como disse no início da resenha, a proposta de Eric é original, vindo de uma onda de publicação de distopias, mas também, e principalmente, pelo momento político em que nosso país passa. Nesse sentido, a história de Eric, por mais que seja ficção, ainda assim é uma possibilidade do que se pode vir a ser, ou até mesmo demonstrar momentos pelo qual o Brasil já passou. Não sei se é conhecimento de todos, mas sou formado em História e não foi uma ou duas vezes, mas algumas passagens da narrativa me fizeram lembrar de momentos históricos traumáticos, como a ditadura militar ou, pensando em contextos internacionais, os momentos de guerra.

A perseguição, o sentimento de imunidade ou até mesmo aquele medo constante foram sensações perpassadas ao longo da leitura e que aproxima o leitor de uma realidade que muitas vezes ele não está inscrita. Do mesmo modo, acredito que por se passar em um cenário conhecido por mim, como no caso é São Paulo, o envolvimento e a proximidade com a história tenha sido maior,  já que passei, em viagens realizadas, pelos mesmos cenários dos personagens. Dessa forma, a imaginação correu solta.

Os personagens do autor são bem construídos, cada qual com suas características únicas, apesar de sentir certa superficialidade nos mesmos (isso se deve principalmente a expectativa que eu tinha sobre o livro). E acredito que isso tenha sido proposital, diante do público na qual o autor se destina e da maneira que Eric constrói sua história. A linguagem é de fácil entendimento, fazendo com que a leitura se torne fluida e as páginas avancem sem percebermos. E acredito que isso acaba contrabalanceando a questão dos personagens.

Na minha opinião, Eric escreve a um público específico e se utiliza de um recurso para alcançar o mesmo: a escrita. E isso é um ponto positivo, uma vez que causa (como ocorreu comigo) certos baques, fazendo com que o mesmo reflita sobre a história que está lendo. Nesse sentido, Eric não mede esforços em colocar os personagens em situações próximas de uma realidade possível, por mais que seja ficção. Mas se parar para pensar, diz muito de nossa sociedade. A perseguição e o preconceito contra minorias ocorre todos os dias ao nosso redor, para não dizer de coisas piores, como é o caso do recente projeto de Cura Gay, apoiado pelo governo. E é baseado nisso que algumas situações são criadas na história.

E diante dessa grande expectativa que tive e não foi superada, senti falta de um envolvimento e uma tensão maior ao longo da história. Digo isso no sentido de criar um começo, meio e fim, pelo qual o leitor possa esperar algo e querer ir adiante. Os jovens têm um sentimento de justiça pelo qual querem lutar, mas faltou um objetivo a ser alcançado (algo que ocorre apenas na reta final. não dando tempo para que pudesse ser desenvolvido). Do mesmo modo, acreditei que o reencontro entre Chuvisco e Júnior teria outro desenrolar, algo mais bombástico e que mudaria o ritmo da história totalmente (apesar de ter gostado o que o autor propôs).

As catarses criativas do protagonista são um detalhe a parte que tornam o livro ainda mais rico e complexo. Além disso, o livro tem um desfecho um tanto esperado, com algumas reviravoltas e possibilidades de a história continuar. Apesar de algumas ressalvas apontadas, acredito que a leitura seja necessária, mesmo que seja apenas para reflexão sobre o nosso presente, de tal modo a repensar atitudes e práticas cotidianas. Desse modo, acredito que uma boa opção de uso seria na própria sala de aula, atrelando a discussões de atualidade.

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


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