Avaliação: 5/5
Editora: Companhia das Letras, Cortesia
ISBN: 9788535929133
Gênero: Biografia, Autobiografia, Memórias, História, Não Ficção
Publicação: 2017
Páginas: 704
Skoob

Lima Barreto é um autor celebrado pelo Brasil todo. Ainda hoje, suas obras são lembradas, estudadas e interpretadas nas aulas de português, por estudiosos ou até mesmo admiradores da literatura brasileira. Não é a toa que, na Festa Literária de Paraty deste ano, o autor foi escolhido para ser o homenageado e a historiadora Lilia Moritz Schwarcz lançou sua nova obra, Lima Barreto – Triste visionário. Após algumas décadas trabalhando a virada do século XIX pro XX, abordando questões raciais, a vida do imperador e da corte, a figura de Lima sempre aparecia às margens, até o momento em que Lilia Moritz decide dar uma atenção exclusiva ao autor e dedicar a ele essa biografia. Logo na introdução a autora se abstém do título de grande biografia de Lima, atentando para o fato que sua obra é uma demanda do presente, em virtude do combate a uma invisibilidade social de negros e afrodescendentes no Brasil. Nesse sentido, cita o trabalho de Francisco Assis, primeiro biógrafo a se dedicar sobre a obra do romancista. E vai um pouco além, afirmando a existência de um posicionamento político de Lima Barreto, sendo este presente em seus textos.

Por se tratar de um trabalho biográfico, a autora percorre todos os momentos da vida de Lima, desde seu nascimento até a morte. Paralelo a isso, Lilia realiza um esforço válido e bem construtivo de ir tecendo um panorama histórico sobre a história do país, procurando estabelecer relações entre o que acontecia e a vida de Lima Barreto. Nesse sentido, o livro se mostra denso em número de páginas, mas rico em conteúdo. Além disso, a autora se utiliza de inúmeras fontes de período, por exemplo, jornais e imagens, para ir construindo uma narrativa que encanta e faz querer saber mais. Logo na introdução do livro, que achei maravilhosa, a autora estabelece uma relação bem legal entre biógrafo e biografado no sentido de se aproximar de Lima, personagem que já aparecia em suas pesquisas deste o doutorado, mas que nunca havia conseguido se deter com mais atenção. Nesse sentido, a impressão que a autora dá ao leitor é uma proximidade tão grande com o personagem que parece serem velhos amigos, fazendo com que queira se saber mais sobre sua vida.

O livro é dividido em dezessete capítulos, explorando diversos momentos da vida do autor. Assim, procura-se também refletir sobre as diversas facetas de Barreto, indo ao encontro de outra característica de uma biografia. Geralmente, quando se escreve algo do tipo, acaba-se que escolhendo um viés e trabalha-se em cima dele, como se existisse apenas aquela faceta. O que Lilia faz, e que acho extremamente válido, é mostrar Lima Barreto como um sujeito contraditório, homem de seu tempo, mas sem o heroicizar ou algo do tipo. Ela é categórica em dizer da importância de sua obra, mas também afirma que o autor sofria de alcoolismo e que isso levou a uma morte prematura. Da mesma maneira, explora o lado escritor, colocando diversas características presentes em sua obra, mas também o seu posicionamento político, como a época em que se aproximou dos ideais anarquistas. Do mesmo modo mostra a relação dele com os modernistas, que começaram a surgir no período, a sua crítica no que diz respeito a Academia Brasileira de Letras e o relacionamento um tanto contraditório com Machado de Assis, conterrâneo dele.

Por mais que seja um livro com uma pesquisa acadêmica intensa, ainda assim Lilia consegue construir uma narrativa que chama a atenção de quem lê, trazendo inúmeras informações sobre o contexto em que o romancista viveu. Desde o início da República, passando pelo campo da medicina e da loucura e indo até o período do modernismo: a pesquisa da autora é de peso e resulta numa obra que vale a pena ser lida e conhecida. Um ponto a ser colocado é a autora se colocar diante da outra biografia de Lima, salientando a sua importância e destacando um espaço ao próprio biógrafo durante a sua narrativa. Além disso, o próprio contexto da imagem da capa, sendo feita especialmente para o livro a partir de um pedido feito pela autora, onde foram usadas referências disponíveis sobre a fisionomia do autor. Apesar das quase 600 páginas, sendo elas 100 apenas de notas de rodapé, Lima Barreto: triste visionário é uma leitura indispensável para se compreender a história do Brasil e, porque não, o nosso próprio presente?

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


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