Essa postagem é uma análise minha. Não tem vínculo com os editores, nem com o autor da obra.

Foto: Editora Intrínseca/Viagens de Papel (Divulgação)

Essa é a semana especial do livro Piano Vermelho (já resenhei ele aqui, e falei sobre o cenário e contexto da história aqui). Agora é hora de falar um pouco sobre Philip. Não exatamente do personagem, mas da sua filosofia de vida.

 

“Mi, Sol, Si, Ré, Fá (Meu sol se refaz).
Fá, Lá, Dó, Mi. (Fala dormindo).
Um exercício de memorização termina, outro começa.
Assim como a guerra termina, a vida começa… em casa.
A vida no caminho.”

Relembrando:

Philip é o pianista da banda “Danes”, que fez parte da 2ª Guerra Mundial como banda do exército.

Philip Tonka, o personagem principal, tem seu próprio jeito de superar o pós guerra e tocar a vida adiante. É o que ele nomeia de “O Caminho”.

No livro, esse “Caminho” não é algo religioso, não é algo estudado… é praticamente um estilo de vida. É a percepção de que você tem tudo sob controle e que não vai deixar as coisas saírem dos trilhos. Pra isso, ele vive alertando sua mente para “não sair do caminho”.

Não é fácil para quem esteve diante dos horrores da guerra viver em paz. Há uma porcentagem muito grande de soldados com estresse pós traumático e os sintomas são variados: culpa por sobreviver, isolamento, paranoias, vícios, entre outros.

Alguns se tornaram amigos de copo. Outros se afastaram, preocupados com Philip Tonka, o pianista que tomava duas doses a cada nota que tocava.

Sai fora do caminho. Estou no caminho.”

Esse discurso do “Caminho” é tão forte e importante para Philip que a música de maior sucesso da banda se chama “Be here” (Esteja aqui). E ele vive lembrando ou invocando sua letra (que não é apresentada, infelizmente) para o fazer lembrar de voltar para o “Caminho”, de manter no aqui, no agora.

Outra coisa que parece trazer lucidez para o pianista é o exercício para iniciantes de música: Meu Sol Se ReFaz, que são as notas que aparecem nas linhas do pentagrama quando a clave da partitura é Sol (mi-sol-si-re-fá). Complexo? O pentagrama é aquele desenho de cinco linhas e quatro espaços, onde se desenha as notas. A clave de Sol é aquela que parece um S em letra cursiva, só que meio do avesso.

Essa frase tem uma conotação de nova chance: o mundo pode ter acabado, mas quando o Sol reaparece… inteiro; esse mundo se refaz, dando uma nova oportunidade.

Philip utiliza esse exercício musical e a música “Be here” como um mantra pessoal, para lembrá-lo sempre de que a guerra acabou e de que é necessário dar conta da vida que segue.

Fá também é a tecla que o pianista tem pendurada em seu pescoço como um amuleto/lembrete. Essa nota é o tom neutro dentro da escala de sete tons: dó é um extremo, si é o outro extremo. Sabe aquela história de é 8 ou 80? Extremos. Viver nos extremos não é bom para ninguém, o ideal é viver no meio, em harmonia… em Fá.

Fazendo um outro paralelo com o livro: alertar a mente é um conceito budista trazido e propagado pelo Mestre Zen Thich Nhat Hanh, que diz que, ao viver com a mente alerta, trazendo ela para o presente, para o “aqui”, conquistando assim uma consciência plena, desenvolvermos verdadeiramente a paz dentro de nós e no mundo.

O mestre zen Thich Nhat Hanh é um dos precursores do budismo engajado, que começou por volta de 1926 no Vietnã. Durante aquele ano, a guerra assolava o país e os monges tiveram que escolher entre a vida contemplativa e meditativa nos mosteiros ou ajudar os aldeões que estavam sofrendo com os bombardeios. Thich escolheu os dois. Demais isso! E pasmem: ele continua realizando esse trabalho pelo mundo através do budismo engajado, com quase 100 anos. Dá pra ter uma ideia dos pensamentos dele aqui nesse site.

Essas são as principais análises do “Caminho do Philip”.

Sobre o autor
Janaína Rodrigues
Janaína Rodrigues Uma sonhadora nata, encantada com a magia que pode ser encontrada no mundo real. Super apaixonada por livros, quadrinhos e séries... Hum... fanática por animação e amante entusiástica de manifestações artísticas. Pedagoga, professora de informática, virginiana, Grifinória e, claro, divergente. Mais ou menos por ai...


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