AVALIAÇÃO: 3,5/5
EDITORA: ROCCO, CORTESIA
ISBN: 9788532529688
GÊNERO: ROMANCE
PUBLICAÇÃO: 2015
PÁGINAS: 240
SKOOB

Existe beleza nos acontecimentos horrendos? Nesta história fictícia, não. Mas podemos tirar uma forte lição a partir das fatalidades. Às vezes, a tragédia de um será o alicerce para salvar muitas outras vidas, se não, ao menos um grito angustiante ao mundo de aviso, ou ainda um pedido de ajuda. Reze pelas mulheres roubadas, escrito pela americana Jennifer Clement, trata de um assunto de extremo valor moral e uma problemática global. Todos os dias em variados cantos do globo, milhares e milhares de meninas-mulheres são arrancadas de suas famílias e enviadas para regiões longínquas, às vezes a uma pequena distância de suas casas, mas em outras são contrabandeadas para outros países ou mesmo continentes.

No México, principalmente nas regiões mais pobres, o comércio e o tráfico de mulheres encaminhadas à prostituição é bem comum. Na região de Guerrero não nascem mulheres, só homens. Enquanto crianças, é fácil esconder a identidade de uma menina, mas com o passar do tempo as mudanças no corpo se tornam cada vez mais evidentes. Nascer feia neste local é algo bom, ao menos assim é possível estar salva. Em sua totalidade, não é fácil para essas mães manterem suas filhas longe do perigo.

A partir de histórias reais, Clement foi capaz de reunir um arsenal de informações e assim dá vida a uma personagem que passou pelos horrores sofridos por tantas jovens mexicanas. Narrado em primeira pessoa, somos inseridos no dia a dia de Ladydi Garcia Martínez.

Ladydi vive num dos vilarejos mais perigosos do México. O local é de difícil acesso, além de distante, a maioria de seus habitantes é constituído por mulheres, os filhos que nascem logo partem, as casadas não vivem com os maridos, ou foram largadas ou eles atravessaram a fronteira dos EUA em busca de melhores condições de vidas e ocasionalmente mandam dinheiro para suas famílias. Outros morrem no caminho ou vivem em Acapulco. E há aqueles membros homens que se juntam ao narcotráfico, as suas famílias podem até estar protegidas, mas as outras em volta se tornam um alvo fácil.

Aqui conhecemos a vida de Ladydi e suas duas amigas. Ladydi possui uma beleza comum, enquanto uma das amigas possui uma beleza exótica e a outra tem uma deformidade no lábio. Cada qual tem sua própria história de vida e sua própria tragédia.

O destino destas jovens é quase certo, elas se tornam escravas sexuais nas mãos dos traficantes, seus brinquedos ou objetos a serem presenteados aos companheiros. Embora milhares sejam sequestradas e subjugadas a este tipo deplorável de vida, pouquíssimas retornam para casa. As autoridades locais estão corrompidas e fazem parte do esquema, não há onde pedir socorro, por medo a maioria se cala. Em Guerrero sobrevive a lei do mais forte. Numa tentativa de salvar suas filhas, as mães cortam seus cabelos e pintam seus dentes para se tornarem inadequadas às necessidades dos traficantes. Em suas residências, cavam buracos para esconderem suas preciosas filhas quando o perigo está à espreita. É possível adiar o inevitável, mas não fugir dele.

Clement nos mostrou isso pelos olhos de Ladydi, mas a personagem que vivenciou tal destino foi a exótica Paula. Em Guerrero essa é vida destas meninas, é comum, embora uma prática abominável. Reze pelas mulheres roubadas é um livro curto, a história em si não foi muito bem desenvolvida, mas seu conteúdo serve de voz para essas mulheres que tiveram suas vidas arrancadas de si mesmas. Para sobreviver, essas meninas precisam aceitar tudo o que lhes é dito, precisam preservar suas mentes e saúde ao máximo, infelizmente esse é o único caminho para tentarem escapar, pois, se resistirem, os horrores e os abusos se tornam piores. É preciso coragem para sobreviver, é preciso escolher entre destinos horríveis, aquele onde o dano será menor. Mas, mesmo assim, o trauma é permanente, igual as marcas de cigarros que essas meninas auto infringem a si mesmas para se identificarem.

Reze pelas mulheres roubadas é uma leitura áspera, mas com forte valor moral, uma excelente contribuição para o mundo, uma obra que mostra que mulheres são vítimas  da violência e brutalidade machista e necessitam serem ouvidas.

Sobre o autor
Patrícia Oliveira Patrícia Oliveira, 25 anos (07/01) – São José/SC. Acadêmica de Direito, leitora assídua e blogueira. Lê de tudo um pouco, seus gêneros literários favoritos são romance histórico, época e contemporâneo, thriller psicológico, fantasia épica e clássicos. Sempre cultivou a ideia de criar um blog, onde pudesse compartilhar sua opinião. Quando não está fazendo tarefas cotidianas, geralmente está divertindo-se na companhia de seus bichos de estimação. Curte séries, filmes de comédia romântica e animes, mas sua grande paixão é a literatura.


Deixe uma resposta

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: