sexta-feira, 11 de agosto de 2017

AVALIAÇÃO: 4/5 EDITORA: BIBLIOTECA AZUL, CORTESIA ISBN: 9788525063274 GÊNERO: ROMANCE, FICÇÃO PORTUGUESA PUBLICAÇÃO: 2017 PÁGINAS: 192 SKOOB

O livro pode ser fino, mas sua história passa longe da leveza e superficialidade. A desumanização, de apenas 192 páginas, é um relato cruel, inquietante e sensível. Porém, ao mesmo tempo em que traz assuntos um tanto pesados, o português Valter Hugo Mãe imprime uma poesia sem igual na obra, tornando-a bastante tocante e bonita.

Ambientado em uma pequena aldeia da Islândia, o livro conta a história da pequena Halla, que com onze anos perdeu sua outra metade, a irmã gêmea Sigridur. A obra é um relato, narrado em primeira pessoa, de como Halla tenta reencontrar a si mesma após a morte da irmã. Ela, que se sente muito perdida, tem que lidar também com a ruptura da própria família, já que a mãe não aceita a morte da filha e o pai fica desnorteado com a situação.

Buscando o seu sentido na vida, Halla tenta sobreviver, embora se sinta como a “menos morta”. Em sua própria solidão, ela lida com diversas situações, como a crueldade da mãe, que quase não suporta olhar para a filha que está viva. Seu único aliado em casa é o pai poeta, que tenta explicar para a filha que nós somos o que nós vemos, portanto, é preciso buscar a beleza da vida. Além de explorar a situação de dentro da própria casa, o autor insere as reações dos poucos moradores da aldeia e de que forma lidam com a pequena.

Em meio a seus percalços, Halla aproxima-se de Einar, um rapaz do qual vivia fugindo, entre brincadeiras, junto com a irmã. Como o achavam nojento e grotesco, Sigridur pediu, antes de morrer, que Halla nunca desse atenção para ele. Porém, devido aos tristes acontecimentos, é em Einar que a pequena Halla busca consolo. Juntos, os dois estranhos buscam um complemento. É com ele que ela passa a amadurecer e deixa de ser uma criança. E, nela, Einar reencontra a esperança.

O romance de Valter Hugo Mãe mantém o lirismo e a poética de suas outras obras. Desnudando o interior de Halla, o autor expõe a personagem e suas principais batalhas e faz com que o leitor sinta-se arrebatado pela menina, que amadurece muito rápido perante as situações vividas. É difícil não se comover com tanta dor sentida por ela. São inúmeros os sentimentos que a leitura desperta.

Além de falar sobre o amadurecimento de Halla, o livro traz as muitas descobertas feitas por ela na passagem da infância para a fase adulta. Ela, aos poucos, vai descobrindo o mundo e seus prazeres e desprazeres. Descobre também que só querer não é o bastante para esquecer as marcas deixadas pelo tempo. Para enfrentá-las, é preciso saber lidar com cada uma delas.

Fazendo-se valer de uma prosa poética e de muitas metáforas, que em alguns pontos tornam a leitura um pouco enfadonha, Valter Hugo Mãe traz uma história capaz de despedaçar o coração do leitor, ao mesmo tempo em que gera um turbilhão de pensamentos a respeito da vida, do amor, da compaixão, e de tantos outros temas que permeiam a nossa existência. Ao fim da leitura, fica o questionamento e a vontade de que a desumanização esteja tão longe quanto esperamos.

“O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se a pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e parece como um atributo indiferenciado do planeta. Parece como uma coisa qualquer”.

Sobre o autor
Camila Tebet
Camila Tebet Camila Tebet, 24 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


Deixe sua opinião

Seu email não será publicado.



*

Comentários no Facebook