terça-feira, 1 de agosto de 2017

AVALIAÇÃO: 4,5/5
EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS, CORTESIA
ISBN: 9788535928112
GÊNERO: CONTOS
PUBLICAÇÃO: 2017
PÁGINAS: 532 SKOOB

A Companhia das Letras nos apresenta uma excelente obra, com uma seleção de 43 contos da escritora americana, Lucia Berlin.

O quarto conto, Manual da faxineira, é o que intitula o livro. A capa está toda em pontilhismo, técnica muito usada nos anos 50 pelo movimento Pop Art, as cores também remetem àquela época, despertando a curiosidade, é possível distinguir um aspirador antigo da marca Hoover.

Ao iniciar a leitura, uma onda de estranheza quase me afogou, porém fui me habituando com o estilo inusitado da escritora, quase sempre realista demais, às vezes com finais para mim sem sentido ou incompletos, ela simplesmente conseguiu abalar toda a familiaridade e o conforto que sinto ao ler um livro. Mas, ao mesmo tempo que isso parece ruim, é bom, porque nos leva a refletir sobre os temas abordados nas histórias (velhice, solidão, alcoolismo, traição, aborto, morte, problemas familiares…), que de uma forma ou de outra fizeram parte da vida dela. Depois de alguns contos iniciais, percebi estar cada vez mais ávida em continuar lendo, louca para julgar cada uma das histórias.

Durante as mais de 500 páginas, Lucia menciona objetos, produtos, marcas (Jim Beam, Greyhound, Thunderbird, Kool); lugares (El Paso, Nacogdoches, Texarkana, Mullan, Algarrobo, Baton Rouge, Albuquerque, Púcon); comidas (huevos rancheros, chilaquiles); plantas (delfínios, cosmos, tentilhões, bougainvilleas, alcaçuz, turfa); animais (bacaraus, moreia, pargo, grous); autores (Mishima, Tchekhov, Sartre, Keerkegard, Keats); filmes e programas de televisão (Beau Geste, The odd couple, Mildred Pierce, Leave it to beaver, Papai Batuta); músicos e músicas (Ornette Coleman, Siboney, La vie en rose); arte, mitologia (Sísifo, Laocoonte); medicamentos e procedimentos hospitalares (Nembutal, Fenobarbi, cobaltoterapia, colostomia, Metadona), termos hispânicos (pachucos, chicanos, mariachis, huasos); alguns termos franceses (enchanté, connaisseur, tempus perdu, thés dansants), e também algumas palavras desconhecidas para mim (butins, carfologia, meeiro, palimpsesto, bagana). Com tudo isso, é fácil concluir que a autora possuía uma bagagem cultural excepcional, apesar de ter me sentido um pouco perdida, talvez fosse diferente se eu tivesse vivido na mesma época de Berlin, por isso, decidi pesquisar alguns desses itens para captar com mais profundidade cada coisa mencionada por ela. Puro interesse, friso que é possível ignorar tudo isso e entender com clareza o que está sendo contado.

“O que você vai fazer quando eu não estiver aqui, Maggie?, você perguntava toda hora, naquela outra vez, quando estava com viagem marcada para Londres. Eu vou fazer macramê, cara. O que é que você vai fazer quando eu não estiver aqui, Maggie? Você realmente acha que eu preciso tanto assim de você? Acho, você respondeu. Uma declaração simples, típica de um cara de Nebraska.”

No decorrer da leitura, é possível perceber contos que parecem se interligar, nomes que se repetem em histórias diferentes, sua irmã Sally, seu tio John, Mamie, Ben, Jesse, Joe, Conchi… Como explicar? Ao final dos contos, existe um capítulo onde Lydia Davis fala um pouco sobre Lucia e o gênero utilizado em suas histórias, a autoficção, interessantíssima a transcrição de uma frase dita por um dos filhos de Berlin: “As história e lembranças da nossa família foram sendo lentamente remodeladas, embelezadas e editadas, a ponto de muitas vezes eu não saber ao certo o que realmente aconteceu. Lucia dizia que isso não tinha importância: o que importa é a história”.

“Uma coisa eu sei sobre a morte. Quanto “melhor” a pessoa, mais amorosa, feliz e afetuosa, menos é a lacuna que a morte dela deixa. Quando o sr. Gionotti morreu, bem, a sra. Gionotti chorou, todos eles choraram, mas todos foram embora chorando juntos e com ele, na verdade.”

Lucia nasceu em 1926 no Alasca, teve uma vida cheia de altos e baixos, mudanças bruscas e repentinas, uma lista diversificada de trabalhos e funções, três casamentos, quatro filhos, fora a luta contra o alcoolismo. O repertório de contos foi reflexo e também uma mistura de tudo o que presenciou, sentiu e viveu, de forma que ao ler seus contos sentimos a veracidade em suas ficções.

“Quando se está morrendo, é natural fazer um retrospecto da vida, pesar as coisas, sentir arrependimento. Eu também fiz isso nesses últimos meses, junto com minha irmã. Nós duas levamos um bom tempo para nos livrarmos da raiva e da ânsia de atribuir culpas. Até as nossas listas de arrependimento e autorrecriminações estão ficando mais curtas. As listas agora são daquilo que nos resta. Amigos. Lugares.”

 

Sobre o autor
Nara Dias 31 anos (22/12) – São Paulo Pós graduada na USP em Ética, valores e cidadania na escola, atua como professora de informática e robótica para crianças de 4 a 11 anos. Também com especialização em Libras - Língua Brasileira de Sinais, participa da comunidade surda da região onde mora, na Baixada Santista. Seu perfil no Skoob com mais de mil livros lidos, mostra sua paixão pelo gênero infanto-juvenil, onde capa, ilustração e tipo de impressão interferem muito em suas escolhas.


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  1. segunda-feira, 7 de agosto de 2017.

    OI Nara, quer dizer que ela fala de tudo e de todos? Interessante, mas confesso que fiquei atrás por você dizer que sentiu-se um pouco confusa com a forma a dela escrever. Vou pensar um pouco mais a respeito.
    Bjs, Rose

  2. terça-feira, 8 de agosto de 2017.

    Olá, tudo bem? Nossa que interessante essa história da capa. Ela é bem chamativa mesmo e gostei dessa técnica antiga. Parece que a escrita da autora é diferente, o que gosto, e por isso consigo me ater mais também a história tentando entender. Só 500 páginas é que assusta, mas por serem contos pode dar alternativa de ler aos poucos. Gostei da sua resenha e dos quotes escolhidos.
    Beijos,
    http://diariasleituras.blogspot.com.br/

  3. domingo, 13 de agosto de 2017.

    Oi, Nara!
    Aprincípio, parabéns pela resenha. Recebi esse livro da editora, mas ainda não o li, depois de ler Da poesia de Hilda Hist, confesso que fiquei esgotada e ainda não me recuperei, não que seja algo ruim. Mas como eu já havia lido algumas análises interessantes de Manual da faxineira, resolvi esperar um pouco para me jogar na leitura. Gostei bastante de sua resenha.

  4. segunda-feira, 4 de setembro de 2017.

    Oi Nara eu não conhecia esse livro e fiquei até em certo ponto em realizar a leitura, gosto de livros de contos e quem sabe futuramente eu vá dar oportunidade ao mesmo, só não gostei da forma em que a autora escreve.
    Beijinhos

  5. segunda-feira, 4 de setembro de 2017.

    Oiê!!
    Nunca tinha ouvido falar desse livro ou da autora, mas fiquei muito intrigada com sua resenha, principalmente, por causa desse estranhamento que a narrativa te causou e trouxe ainda mais reflexão, adoro obras desafiadoras! Já pela capa do livro me senti desafiada porque eu achava que queria uma história sobre a vida difícil das empregadas domésticas nos dias de hoje e nas primeiras linhas de sua resenha, tudo o que imaginei caiu por terra kkkkkkk
    Obrigada pela dica!

  6. terça-feira, 5 de setembro de 2017.

    Que blog lindo!! Estou apaixonada pelo seu cantinho, de coração.
    Sua escrita também é linda e esse post foi muito gostoso de ler, a resenha ficou muito boa! Eu particularmente adoro livros que falam sobre temas realistas e indiretamente fazem aquela ironia sabe? Muitos dos que li criticavam muitas coisas da nossa sociedade, e acho que quando um tema polemico é abordado (como o alcoolismo e etc), nós leitores acabamos por afastar um pouco o tabu de nossas mentes, e isso é muito bom!

    Um beijo, Karol Vicente.
    http://www.palavrasambulantes.com

  7. terça-feira, 5 de setembro de 2017.

    Olá! Adorei o capricho da edição, nos remetendo ao Pop Art. A obra me despertou o interesse porque nunca li nada parecido e amo livros de contos, acho essa relação criada entre eles muito legal!

  8. terça-feira, 5 de setembro de 2017.

    Oi, Tudo bem? Tem certeza que a capa do livro é um aspirador de pó? Me parece uma enceradeira. Minha mãe tinha uma. kkkkkkk’ Nem sou tão velha, tá?
    Que legal, um livro de contos baseados em fatos reais. *-* Achei interessante. Fiquei curiosa para saber sobre a maneira inusitada de escrever e de finalizar as histórias dessa autora. Babei nessa capa.

    Beijos e sucesso. ;D

  9. terça-feira, 5 de setembro de 2017.

    Boa noite, a história parece interessante, os contos são uma mistura do que viveu pelo que entendi assim que se desenvolve a história.

  10. terça-feira, 5 de setembro de 2017.

    Oi, tudo bem? Não conhecia a autora e a temática me deixou bem fascinada. Gosto muito de “viajar” por outras épocas, e gostaria muito desse livro, tenho certeza. O fato de ser uma compilação de contos me agrada ainda mais, pois teria a perspectiva de vários tipos de personagens e me agrada essa diversidade. Achei o intuito da publicação bem arquitetada e inteligente. Gostei, especialmente, do último quote! Adorei a resenha! 🙂

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

  11. quarta-feira, 6 de setembro de 2017.

    Oii, tudo bem?
    Achei bem bacana o livro ter contos inspirados em fatos reais, mas não sei se leria por se tratarem de contos e alguns comentários seus me fizeram ficar com o pé atrás. Por exemplo, essa estranheza que vc sentiu, não sei se eu iria gostar. Vou passar a dica dessa vez 🙁

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