quarta-feira, 28 de junho de 2017

AVALIAÇÃO: 5/5 EDITORA: FÁBRICA 231, CORTESIA ISBN: 9788568432440 GÊNERO: ROMANCE, ROMANCE HISTÓRICO PUBLICAÇÃO: 2016 PÁGINAS: 368 SKOOB

Conheci a história de A garota dinamarquesa após o lançamento do filme, no ano passado, que gerou uma repercussão em Hollywood, chegando a ser indicado ao Oscar, mas também causando controvérsia pela temática em si e pela maneira com a qual foi lidada. Para quem não sabe, a história aborda a questão transgênera ao narrar a trajetória do primeiro homem que realizara uma cirurgia de mudança de sexo, nos anos 30. Como é perceptível,  o tema em si é de delicadeza extrema, o que implica uma sensibilidade no momento do trato do assunto. Assisti ao filme e me vi inebriado pela atmosfera criada, emocionando-me pela história em si. O tempo passou, até que tive a oportunidade de conhecer o livro no qual deu origem ao filme. Minha percepção mudou completamente, o que me fez gostar ainda mais da história e se tornar um queridinho da estante.

O cenário é início do século XX e temos como protagonista Einar Wegener, que é um pintor dinamarquês que vive com sua esposa Greta, conseguindo custear despesas do cotidiano graças as pinturas que ambos produzem. Greta está envolvida na pintura de um quadro, até o dia em que a modelo que estava posando para ela não comparece à sessão, e a artista pede que o marido vista as meias e os calçados, para que possa dar sequência ao trabalho. Einar aceita de prontidão, mas ambos não esperavam que o favor se tornasse o pontapé inicial de uma história incomum, mas extremamente sensível. Diante da situação, a esposa sugere que Einar se vista totalmente de mulher, mais tarde ganhando o nome de Lili Elba. O que era para ser apenas uma experiência única acaba se tornando algo recorrente e Lili começa a fazer cada vez mais parte da vida do casal, ao mesmo tempo em que Einar passa a questionar seus próprios sentimentos e sua existência.

Quando soube da existência do livro, eu achava que era um livro de época, escrito no período em que a história aconteceu. Só depois que eu peguei o exemplar para iniciar a leitura é que me dei conta que era um romance contemporâneo referente ao período em questão. Isso é justificado logo no início do livro, com uma nota do autor, o que me pareceu algo correto e sábio. O autor destaca que é uma história real, que se baseou em fontes do período, como jornais e correspondências da própria Lili, mas que a construção da história é fruto de sua imaginação. Do mesmo modo, ao final do livro, há um posfácio e uma entrevista do autor, mostrando ao leitor todas as nuances e entremeios da construção da história, determinando até mesmo os limites entre a realidade e a ficção.

Não vou dizer que seja um livro fácil. Pelo contrário, mexe com o leitor, faz refletir sobre uma série de questões, além de questionar posturas que são apresentadas ao longo da narrativa. Acredito que isso se deve principalmente pelo período ao qual estamos falando, em que a questão trans não era algo ainda aceito ou muito discutido na sociedade, considerada por muitos como aberração ou possessão do demônio. No entanto, por outro lado, a maneira com a qual o autor abordou o universo foi de uma delicadeza, sabendo articular tais questionamentos na figura de Einar.

A construção do personagem em si é algo que chama a atenção, pois David conseguiu demonstrar todas as confusões de sentimentos e conflitos íntimos que poderia ocorrer. Vimos um casamento estruturado se ver balançado pela transformação de Einar, ao mesmo tempo em que conhecemos o passado dos personagens para compreender o ponto em que estamos e nos questionamos a todo instante quais os limites possíveis do amor. E nesse sentido, vimos em Greta uma mulher forte e determinada a ajudar e apoiar o marido na busca pela sua verdadeira identidade. Acompanhamos o incentivo dela, além da iniciativa de retratar Lili em quadros da maneira com a qual a via: exuberante e cheia de vida.

Os personagens secundários, como Hans, Henrik e Carlisle são bem construídos, possibilitando que o leitor se identifique com eles, na medida em que eles também se relacionam com a história principal. A figura de Hans, que para mim pareceu fundamental na história, foi algo que não tinha conhecimento por meio do filme. E isso, arrisco dizer, é o ponto fundamental e alto do livro de David: relações. Temos a principal, pautada por Einar e Greta, mas também Einar e Lili, Greta e Lili, Greta e Carlisle, Hans e Einar, Hans e Lili, além de tantos outros. E o modo com que o autor interliga todos eles torna a história tão rica e tão única que é impossível não chegar ao final e não ficar pensando nela durante alguns dias.

A garota dinamarquesa se torna necessário pelas questões que aborda, principalmente num conteANxto que vivemos de intolerância e preconceitos. Por mais que se passe em outro período, ainda assim alguns paradigmas não sofreram modificações. Do mesmo modo, é preciso enfatizar o esforço do autor em tornar romance a história da primeira mulher trans que se tem notícia. Sua narrativa impacta, mas também encanta e nos mostra o quanto o amor é capaz de mudar as pessoas. O desenvolvimento da história nos leva a um ápice que vai além daquele mostrado no filme, o que me surpreendeu, pois possibilitou conhecer um pouco mais de Lili Elba (quem lê vai entender). Não preciso dizer que o livro se tornou um queridinho da estante, e espero que outras pessoas possam sentir o mesmo.

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


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