sábado, 10 de junho de 2017

AVALIAÇÃO: 5/5 EDITORA: PENGUIN COMPANHIA, CORTESIA ISBN: 9788563560858 GÊNERO: FICÇÃO, CLÁSSICO PUBLICAÇÃO: 2014 PÁGINAS: 296 SKOOB

Há alguns anos li “O lobo do mar” e foi aí que entrei em contato com as obras de Jack London. Sem muito o que esperar, embarquei nas aventuras de Humphrey van Weyden e do capitão Wolf Larsen e me surpreendi com a linguagem simples do autor, porém cheia de significados. Este ano, resolvi que era hora de ler outro de seus livros e solicitei Caninos Brancos para a Companhia das Letras. Dessa vez, a surpresa foi ainda mais positiva. Um livro incrível, que me envolveu de forma sem igual.

Caninos Brancos é dividido em partes que mostram como é o funcionamento do mundo selvagem. A história é ambientada no território de Yukon, norte congelado do Canadá, durante a corrida de ouro que atraiu muitas pessoas para a região. Na primeira parte, acompanhamos a jornada de dois companheiros que seguem de volta para a civilização, acompanhados de seus cachorros. Entretanto, o retorno é marcado pelo conflito com a vida selvagem e o surgimento dos lobos, que os perseguem e sentem-se mais destemidos, avançando cada vez mais em direção à suas presas. Aqui, há o aparecimento de uma loba mestiça e a apresentação de suas estratégias para atrair os cachorros para sua matilha.

Na segunda parte, nosso protagonista, Caninos Brancos, aparece. Aqui é possível acompanhar o ponto de vista dos lobos e sua busca por alimento e proteção, seguindo, de perto, a trajetória da loba mestiça Kiche, que em certo momento dá a luz a muitos filhotes, entre eles o pequeno Caninos Brancos. Essa parte do livro foi uma das que mais me marcaram. É realmente emocionante acompanhar o nascimento do pequeno lobinho e suas descobertas sobre o mundo. Em um primeiro momento, ele ficava confinado em sua caverna, sendo sempre amparado pela mãe. Conforme cresce, ele se coloca à disposição de novas descobertas e, a partir de então, encontra-se em uma nova realidade, em que tem que lutar para se proteger, caçar o seu próprio alimento e buscar a sua liberdade. O autor apresenta essa descoberta de um novo mundo de um jeito muito bonito. É como se estivéssemos vivendo tudo isso pela primeira vez também, junto com o lobinho.

Em seguida, acompanhamos a jornada de Caninos Brancos e a sua aproximação com o ser humano. Por conta da mãe, loba mestiça, eles passam a viver em uma aldeia indígena e ali, com o dono Castor Cinzento, o lobo descobre a superioridade do ser humano, que é comparado a um “Deus” na obra. A partir de então, seu comportamento é moldado pelos desejos de seu dono e Caninos Brancos passa a se devotar completamente a ele.

As coisas mudam um pouco de figura quando o lobo é vendido por Castor Cinzento e passa a viver com Belo Smith. Então, ele conhece o outro lado do ser humano: o da crueldade. Obrigado a lutar com outros cães até a morte, Caninos Brancos sofre constantes torturas e torna-se agressivo, vivendo em um ambiente hostil, em que é forçado a agir com extrema violência. Depois de passar por difíceis situações, Caninos Brancos tem sua redenção na quinta parte da obra, em que é resgatado por Weedon Scott e descobre que também pode ter amor e uma relação de extremo companheirismo com o ser humano.

A forma como Jack London estrutura sua obra é realmente sem igual. Por trás da história de Caninos Brancos, o autor traz muitas críticas à nossa sociedade, tratando temas como a relação do mundo selvagem com o ser humano, os moldes de comportamento e a descoberta de novas realidades. Tudo isso é feito com uma linguagem simples, mas cheia de detalhes, que prende a atenção do início ao fim e emociona o leitor com a jornada percorrida pelo lobinho.

A narrativa em terceira pessoa aproxima o leitor do personagem principal, o lobo, e dessa forma é possível vivenciar, junto a ele, todas as situações. Caninos Brancos tem voz no livro e suas aventuras despertam diversos sentimentos, como felicidade, angústia, medo, solidão, ansiedade, entre outros. A antropomorfização construída por London confere ao personagem sentimentos genuinamente humanos, então é difícil não se apegar a ele e torcer pelo seu final feliz.

A obra mostra de que forma o comportamento é moldado de acordo com o ambiente em que o personagem está inserido e, a partir disso, é possível fazer uma série de reflexões sobre o comportamento humano e os elementos presentes em nossa sociedade. Os questionamentos levantados por London são atemporais e podem se ajustar à qualquer época e local. É impressionante a forma como, contando a história sob o ponto de vista de um lobo, o autor consegue compreender a humanidade.

A história de Caninos Brancos chegou a virar filme da Disney, lançado em 1991 e protagonizado por Ethan Hawke. Eu não conhecia a produção e logo depois de concluir a leitura, fui conferir a adaptação. É um bom filme, feito aos moldes de “Sessão da Tarde”. Por isso, traz uma lição bacana e é emocionante, mas não possui a mesma profundidade do livro. Se você gosta de leituras desafiadoras, que trazem uma nova visão de mundo, não deixe de conferir e se encantar por essa história!

“Isso era viver, embora ele não soubesse. Estava se dando conta do seu sentido no mundo; estava fazendo aquilo para o qual fora criado: matar carne e lutar por ela. Estava justificando a sua existência, que é a coisa mais importante que um ser vivo pode fazer, pois uma vida atinge o ápice quando faz com o máximo empenho aquilo para o qual foi equipada para fazer”.

“O ambiente servia para moldar o barro, para lhe dar determinada forma. Então, se Caninos Brancos nunca tivesse se aproximado das fogueiras dos homens, o mundo selvagem o teria moldado como um lobo de verdade. Porém, os deuses haviam proporcionado a Caninos Brancos um ambiente diferente, e ele foi moldado como um cachorro que tinha várias características de lobo, mas que era um cachorro e não um lobo”

 

Sobre o autor
Camila Tebet
Camila Tebet Camila Tebet, 24 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


Deixe uma resposta

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: