sábado, 6 de maio de 2017

Avaliação: 3,5/5 Editora: Companhia das Letras, Cortesia ISBN: 9788535927993 Gênero: Jornalismo literário Publicação: 2016 Páginas: 272 Skoob

Quem tem proximidade com o jornalismo com certeza já ouviu falar sobre Gay Talese. Nascido em 1932, ele é considerado um dos fundadores do “novo jornalismo”, conhecido também como jornalismo literário. A premissa dessa nova forma de fazer jornalismo é utilizar recursos da ficção para contar histórias, partindo de uma perspectiva subjetivista e trazendo novas abordagens sobre a história. Conhecido por livros como “A mulher do próximo”, “Honra teu pai”, “Vida de escritor”, entre outros, exemplos de obras do jornalismo literário, Talese publicou, no ano passado, o polêmico O voyeur, que chegou ao Brasil pela Companhia das Letras.

A publicação deste novo livro trouxe uma série de questionamentos éticos a respeito da história, além da apuração de Talese, que teria deixado passar dados inconsistentes, capazes de desconstruir a trama. Eu não tinha lido nada a respeito dessas polêmicas antes de iniciar a leitura da obra, que havia chamado a minha atenção pela premissa e me envolveu de forma sem igual, fazendo com que eu terminasse a leitura em menos de dois dias.

Em 272 páginas, Talese conta a história de Gerald Foos, um homem que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver e construiu uma “plataforma de observação” para satisfazer seu instinto voyeurístico e observar a vida alheia. O jornalista conheceu a história de Foos por meio de uma carta que recebeu em 1980. Na correspondência, Foos explica como fez buracos retangulares no teto dos quartos de seu motel e observou, por anos, seus hóspedes, registrando, em um diário, as ações e comportamentos de cada um. Gabando-se por nunca ter sido descoberto, Foos colocou-se à disposição de Talese para que este conhecesse mais a fundo sua história e tivesse acesso a todos os relatos.

Intrigado com a história, Talese entrou em contato com Foos e passou a investigar seus registros, mesmo sabendo que dificilmente escreveria um livro sobre isso. Contrariando suas próprias expectativas, anos depois, quando Foos permitiu que sua história viesse à tona, Talese publicou grande parte desses relatos. O livro começa contando como foi feito o contato entre os dois e o que fez com que o jornalista fosse atrás dessa história. Curioso e ao mesmo tempo revoltado com a invasão à privacidade de muitas pessoas, ele seguiu com sua pesquisa.

Boa parte da obra traz transcrições do diário de Foos. Muitas cenas de sexo são descritas, ao mesmo tempo em que ele discorre sobre o que é ser um voyeur e faz análises do comportamento da sociedade, observado ao longo de anos. Ao contar essa história, Talese não propõe grandes reflexões a respeito do tema. Ele coloca, brevemente, que não sabe até que ponto os relatos de Foos são autênticos, pois percebe que ele é um pouco impreciso em alguns dados. Além disso, faz um breve questionamento de que se, omitindo a história das autoridades, estaria sendo cúmplice de todas essas invasões. Entretanto, falta um questionamento maior sobre o que é certo e errado, as motivações de Foos e as consequências dessa exposição.

A todo momento durante a leitura me questionei sobre a relevância de contar essa história. Apesar de ser interessante sob muitos pontos de vista, é uma invasão muito grande das pessoas observadas, além de retratar pequenos instantes de suas vidas, que não as representam em sua totalidade. Durante várias passagens do livro, Talese falou que não tinha interesse em publicar a história, não sem poder divulgar o nome verdadeiro de Foos. Em 2013, quando obteve a permissão, ele começou a escrever seu livro. A impressão que tive é que a permissão foi dada apenas para satisfazer o ego de Foos e colocá-lo novamente sob uma sensação de “poder”, de mostrar o feito que realizou, observando a vida dessas pessoas por anos, sem que ninguém descobrisse.

Após o lançamento do livro, surgiram muitas polêmicas a respeito da credibilidade da história, colocando em xeque a apuração feita por Talese. Na obra, há alguns dados inconsistentes. Foos, por exemplo, traz relatos dos anos 80, quando, na verdade, teria vendido o motel em 1980, voltando a comprá-lo em 1988. Além disso, conta a história de um assassinato que presenciou em um dos quartos, mas não há nenhum registro na polícia sobre o acontecimento. Os dados trazem um questionamento sobre até que ponto a história é verdadeira e se Talese não foi um tanto quanto ingênuo, atribuindo mais poder à ela do que de fato merece. Logo depois que as inconsistências da história foram apontadas pela mídia, Talese chegou a afirmar que não publicaria o livro e fez declarações desapontadas sobre seu personagem Foos. Entretanto, ele voltou atrás e comunicou que, caso necessário, faria correções nas próximas edições da obra.

Apesar de trazer uma história polêmica, marcada pela discussão de até que ponto é válido divulgá-la, não há como negar que Talese escreve de forma sem igual. A narrativa é envolvente e mesmo sabendo que os dados foram obtidos de forma duvidosa, é difícil parar de ler. A forma como ele expõe os dados faz com que o leitor fique cada vez mais curioso para saber os rumos que a história tomou. No posfácio, há uma entrevista feita com o autor pela revista Paris Review, intitulada “Gay Talese, a arte da não ficção n.2”. Aqui, não há nenhuma menção à obra “O voyeur”, mas é muito interessante acompanhar os métodos e a forma como Talese encontra suas histórias. Esse não é nem de longe o melhor livro do autor, mas, até certo ponto, traz discussões interessantes justamente por conta de sua polêmica.

Sobre o autor
Camila Tebet Camila Tebet, 22 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Lê de tudo um pouco, mas os gêneros de que mais gosta são os romances românticos e chick-lit. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


Deixe uma resposta

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: