sexta-feira, 5 de maio de 2017

Avaliação: 5/5
Editora: Companhia das Letras, Cortesia
ISBN: 9788535926996
Gênero: Não ficção
Publicação: 2016
Páginas: 488
Skoob

O estupro ainda é um tema considerado tabu por muitas pessoas, que minimizam o assunto e ignoram os dados alarmantes divulgados, além de, muitas vezes, culpabilizarem as próprias vítimas. Em Missoula, o jornalista Jon Krakauer, autor de “Na natureza selvagem”, traz um relato forte e chocante sobre o tema, analisando dados e alguns casos de agressão sexual que ocorreram na cidade, localizada em Montana, nos Estados Unidos. Em sua obra, Krakauer traz um panorama sobre o assunto, demonstrando que muitos casos estão ligados aos times de futebol americano das universidades, e acompanha duas situações bem de perto, contando as histórias de Allison e Cecilia.

Dividido em seis partes: Allison, Diante da lei há um guardião, Atenção indesejada, Escalas de justiça, Julgamento por júri e Abalos posteriores; o livro de Krakauer expõe uma realidade muitas vezes omitida. Entre 2008 e 2012, o departamento de justiça americano investigou 350 acusações de agressão sexual em Missoula, cidade universitária americana. Entretanto, como mostra o autor, poucos desses casos são levados a sério e trazem punições aos agressores. 

Já nas páginas iniciais do livro, o autor traz, no prefácio, dados alarmantes sobre o assunto e destaca que “pelo menos 80% das pessoas violentadas não denunciam o crime às autoridades”. O livro tem como propósito entender o motivo de tantas vítimas não irem à polícia, além de compreender as repercussões das agressões sexuais. Durante seu estudo, Krakauer conversou com diversos especialistas, compareceu a audiências judiciais, fez uma extensa pesquisa com base em documentos, cartas, e-mails, boletins de ocorrência, gravações, entre várias outras fontes.

O resultado de sua pesquisa é este livro, que, apesar de perturbador em muitas de suas passagens, coloca em destaque um assunto que precisa ser discutido. Os dois casos abordados na obra, de Allison e Cecilia, foram amplamente estudados pelo autor. As duas jovens foram estupradas por pessoas próximas a elas, sem nunca imaginarem que algo do tipo poderia acontecer. 

É difícil resumir uma obra tão complexa, que aborda temas tão difíceis, nesta resenha. Não vou me ater aos detalhes de cada história. O que posso dizer é que Krakauer traz questionamentos muito pertinentes e mostra o quanto as mulheres sofrem opressão de várias partes. No caso de Allison e Cecilia, ambas tiveram a coragem de se expor e fazer denúncias formais de seus agressores. O livro mostra o quanto esse processo é desgastante. Além de ter que expor a situação, elas ainda tiveram que enfrentar muitas coisas, como o julgamento das outras pessoas, a insegurança constante e outras consequências em seus comportamentos, além das várias audiências tendo que provar que sofreram agressão – mesmo que os indícios fossem óbvios, tudo para que seus agressores tivessem uma punição adequada. Ainda assim, Krakauer mostra o quanto o sistema judicial é falho e tendencioso neste sentido.

Missoula é conhecida por sua faculdade ser sede de um importante time de futebol americano. Os jogadores dos Grizzlies são idolatrados pela população. Nos dois casos analisados por Krakauer, jogadores do time estavam envolvidos. Dessa forma, outra parte importante da obra mostra como os atletas são colocados em “pedestais”. Eles são exemplos a serem seguidos, vistos como heróis. Quando se envolvem nos escândalos, grande parte da população ainda dá suporte aos jogadores, simplesmente por ocuparem uma posição de status na sociedade. Enquanto isso, as vítimas são julgadas e a posição se inverte: elas são tratadas como se fossem as criminosas.

O livro traz um assunto muito difícil. Mostra como as agressões sexuais ainda são constantemente subjugadas, e o quanto as vítimas não têm o apoio necessário. Muitas vezes, elas mesmas passam a acreditar que têm culpa do que aconteceu. Isso está enraizado em nossa sociedade patriarcal, que ainda coloca a mulher como ser inferior. Esta é uma obra muito importante, por colocar essa temática em voga e trazer discussões a respeito disso. É frustrante ver que ainda estamos bem longe de um “mundo ideal”, mas estamos caminhando para isso. É preciso dar voz às mulheres, mostrar que cada ação tem sua consequência.

É nítido o cuidado que o autor tomou com a sua pesquisa, baseando-se em fatos e coletando muitos depoimentos para reconstruir as histórias. Ele também preocupou-se com as vítimas e mostrou porquê é importante falar sobre violência sexual, ainda que não seja nada fácil. O processo de mudança é lento, mas começa em cada um de nós. Leia, informe-se e demonstre empatia pelo próximo. O pouco que você fizer já vai ajudar a construir um mundo melhor! Esta é, com certeza, uma leitura essencial.

“Bem, devemos tratar as mulheres como sujeitos independentes, responsáveis por si mesmas? É claro. Mas ser responsável não tem nada a ver com ser estuprada. As mulheres não são estupradas porque estavam bebendo ou porque usaram drogas. As mulheres não são estupradas porque não foram cuidadosas o bastante. As mulheres são estupradas porque alguém as estuprou (Jessica Valenti, The Purity Myth)”

“Quando escutam o termo ‘estuprador’, disse Lisak, muitas pessoas ‘pensam num cara com uma máscara de esqui, empunhando uma faca, escondido no mato, invadindo uma casa. É uma imagem assustadora, e de fato isso acontece, mas… a grande maioria dos estupros, bem mais de 80%, é na verdade cometida por conhecidos'”

Sobre o autor
Camila Tebet
Camila Tebet Camila Tebet, 24 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


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