Avaliação: 4/5 Editora: Biblioteca Azul, Cortesia ISBN: 9788525063281 Gênero: Romance, Ficção Portuguesa Publicação: 2016 Páginas: 192 Skoob

Homens imprudentemente poéticos é o segundo livro que leio do autor Valter Hugo Mãe e só comprovou a primeira impressão que tive dele: seus livros são poéticos, recheados de belas metáforas e histórias intensas, que trazem reflexões e novas perspectivas sobre a vida. Em seu novo livro, publicado pela Biblioteca Azul no Brasil, o autor traz uma história que se passa no Japão Antigo, cercado por lendas.

Valter Hugo Mãe conta a história do artesão Itaro e seu vizinho oleiro Saburo. Por mais que morem perto um do outro, os dois não se dão bem e têm que conviver com a desavença e com a falta de amor que rodeiam suas vidas. Itaro mora com a irmã cega Matsu e a empregada Kame, que sempre os tratou como filhos. Já Saburo vive sozinho, atordoado com a perda da esposa Fuyu, morta por uma misteriosa sombra, que adentrou a casa sem que houvesse outra solução, conforme previsto anteriormente por Itaro.

Os dois vivem suas vidas de forma solitária e, após vender a sua irmã para um desconhecido, julgando fazer a coisa certa, Itaro passa a viver de forma ainda mais reclusa, cercado pela culpa. O livro fala sobre temas como a solidão, luto, medo, morte, incertezas e outros sentimentos que permeiam nossa existência. Itaro e Saburo possuem grandes desafios e têm que conviver com as escolhas que tomaram em suas vidas.

A história se passa em uma pequena cidade japonesa que conta com a floresta dos suicidas, um dos grandes símbolos do Japão. No local, os suicidas entram na floresta, onde podem refletir sobre diversos aspectos de sua existência e decidir se gostariam de retornar. Na cultura japonesa, o suicídio não é visto de forma negativa, como se simbolizasse a derrota. Por meio dessa e de outras representações da cultura do país, Valter Hugo Mãe constrói uma história única, permeada de metáforas, com uma narrativa extremamente poética.

Em um dos capítulos mais bonitos do livro, o autor conta a lenda do poço, em que Itaro é levado a um poço profundo, em que deve permanecer sete sóis e sete luas no considerado “ventre puro do Japão”. No poço escuro, incapaz de ver qualquer coisa, Itaro reflete sobre sua condição e pensa na irmã cega, que durante toda a sua vida não pôde enxergar. Lá, ele tenta fugir de um grande animal, esfomeado e feroz, com quem divide o espaço. Para sobreviver, ele precisa tornar-se amigo do bicho. Depois, descobre que o animal era seu próprio medo.

A presença da personagem Matsu também é um dos destaques do livro, sendo abordada com bastante delicadeza. Mesmo cega, ela é capaz de enxergar as coisas com muito mais clareza, irradiando luz por onde passa. O jeito que o autor escreve é encantador. A cada página eu sentia um aperto no peito pela triste história contada, mas meu coração foi preenchido por tanta poesia e citações bonitas.

Quem não está acostumado com sua narrativa, pode estranhar a forma como Valter Hugo Mãe escreve e demorar a engrenar na leitura. Mas aos poucos você vai se acostumando e com certeza será uma grande surpresa, além de trazer importantes reflexões sobre a vida, abordadas de forma única pelo autor. Se você ainda não leu nada dele, dê uma chance, você não irá se arrepender.

“A morte era muito pouco para terminar um sentimento tão grande”

“De tristezas estavam ricos. Precisavam de sol. E outra vez insistia, que seria boa a chegada da primavera”

“Havia sempre esperança na travessia nocturna. Cada deus revia a criação no quieto da noite. Acender os dias era sempre a possibilidade de uma nova criação. Era importante dormir com esperança”

Sobre o autor
Camila Tebet
Camila Tebet Camila Tebet, 24 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


Deixe sua opinião

Seu email não será publicado.



*

  1. sexta-feira, 24 de março de 2017.

    Sinto curiosidade em ler algo desse autor… Gosto de livros que abordem temas difíceis como morte, ainda mais sendo narrado num estilo diferenciado como mostrou com sua resenha Camila. Estou aguardando uma oportunidade para ler algo dele. Beijos

Comentários no Facebook