segunda-feira, 18 de julho de 2016

AVALIAÇÃO: 5/5 EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS, CORTESIA ISBN: 9788535921632 GÊNERO: FICÇÃO MOÇAMBICANA PUBLICAÇÃO: 2012 PÁGINAS: 256 SKOOB

AVALIAÇÃO: 5/5
EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS, CORTESIA
ISBN: 9788535921632
GÊNERO:REALISMO FANTÁSTICO, FICÇÃO AFRICANA
PUBLICAÇÃO: 2012
PÁGINAS: 256
SKOOB

É sempre uma lição de vida ler Mia Couto. Seja pela sua narrativa extremamente poética e repleta de metáforas, seja pela seriedade e pelas questões que aborda em suas histórias. Já li alguns livros do autor, mas nenhum com questões tão sérias quanto “A confissão da leoa“. Mas uma vez, o autor se utiliza de simbolismos para pensar a sociedade africana, suas práticas e tradições.

Na aldeia de Kulumani, norte de Moçambique, começam a ocorrer casos de ataque de leões, gerando um sentimento de pânico na população. O alerta acaba se espalhando por todo país, e um caçador, Arcanjo Baleiro, é enviado para dar cabo das feras. Junto dele, está Gustavo Regalo, escritor e personagem inspirado no próprio autor. Só que Regalo é apenas um elemento secundário nesta trama, em meio a outros elementos e personagens tão complexos. A história ganha dois narradores, em capítulos alternados, misturando passado e presente: o caçador e uma moça da aldeia, Mariamar, cuja irmã, Silência, foi a vítima mais recente das feras. A partir dos monólogos interiores de ambos os personagens, ficamos sabendo que anos antes tiveram um encontro romântico. Além disso, acompanhamos os dramas secretos de cada um deles: Arcanjo apaixonado pela mulher do irmão, que se internou num hospício após ter matado o pai com um tiro; Mariamar atormentada pela lembranças de sua infância, a figura obscena do pai e a suspeita de ter um pacto com a leoa. Em meio a tudo isso, temos a sucessão de acontecimentos envolvendo assassinatos, incesto, traição, opressão política e sexual.

Como disse no começo da resenha, esse é o livro do Mia Couto que me fez mais refletir, mesmo após a leitura. Nesse sentido, o foco da minha opinião será na própria protagonista, a situação que ela vive e as tradições as quais ela está inserida, pois acho que deve ser ressaltada. Ela, enquanto exemplo de mulher, não tem direitos numa sociedade opressora e extremamente machista. Sendo assim, ela é obrigada a passar por situações que nenhuma mulher gostaria de passar, sendo que muitas os outros veem isso como algo normal e muitas vezes acabam culpando a menina pelo que aconteceu.

Essa dura realidade que Mia Couto aborda em seu livro, de maneira sutil e repleta de metáforas. O recurso a que se utiliza é o ataque dos leões a outras mulheres. No início, você, enquanto leitor, tem uma dimensão do que pode estar causando aquilo. Porém, quando você chega ao final da história e lhes é revelado o mistério, você se dá conta do quão brilhante pode ser um autor como Mia Couto. Você passa a entender o posicionamento do autor, e sua opinião sobre o assunto. Você leva aquilo para sua vida. Você reflete sobre o seu próprio cotidiano. Você passa a questionar a sua própria sociedade. E passa a pensar ainda mais quando dois dias depois do término da leitura você vê a notícia de uma menina de 16 anos que foi estrupada por 33 homens. Isso mesmo que você viu. A que ponto chega o ser humano? Se já não bastasse isso, suas imagens foram divulgadas nas redes sociais. É um misto de nojo e odio por pessoas que são capazes de fazer isso. Esse caso ganhou espaço na mídia. E quantos outros que ocorrem e ninguém fica sabendo? Temos que repensar nossas atitudes, nosso posicionamento e nossa conduta.

Voltando ao livro, Mia Couto é um autor que não mede palavras para dizer, mas que sabe o que diz. Que constrói personagens complexos e uma trama um tanto confusa, que se você não se deixar levar, vai acabar não entendendo. Ler Mia Couto é sair da zona de conforto. É ficar com a pulga atrás da orelha. É voltar e reler e entender algo que você não tinha percebido antes.

Isso é acrescido dos outros personagens, como o próprio caçador e o escritor, que é inspirado no próprio autor. E é mais uma vez o choque que ambos tem ao se deparar com uma cultura totalmente diferente da deles que causa um certo incômodo no leitor. Não era leões animais que deviam estar procurando. Atribuído a isso, temos outros elementos próprios da cultura africana, como a própria ancestralidade e o questionamento de tradições postas até então. Se devem ler? Mais do que sim!

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


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  1. segunda-feira, 18 de julho de 2016.

    Eu não teria parado para olhar para esse livro duas vezes se não fosse pela sua resenha. Nunca imaginaria que abordava esse tema tão difícil e importante de ser discutido na atualidade. Ótima dica!
    Gislaine | Paraíso da Leitura

  2. quarta-feira, 20 de julho de 2016.

    Sério, estou começando a amar essa editora, as resenhas que estou lendo são sensacionais, um livro melhor que outro. Eu gosto desses livros culturais, esse não é uma história muito feliz, mas parece muito interessante de se ler. bj

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