segunda-feira, 18 de julho de 2016

Avaliação: 5/5 Editora: Companhia das Letras, Cortesia ISBN: 9788535927108 Publicação: 2016 Páginas: 464 Skoob

Avaliação: 5/5
Editora: Companhia das Letras, Cortesia
ISBN: 9788535927108
Gênero: História, Não Ficção Publicação: 2016
Páginas: 464
Skoob

Robert Darnton é um dos maiores historiadores na atualidade. Sua pesquisa se relaciona diretamente com a história do livro, de práticas de leitura e da comunicação, tendo como foco a França no período moderno. Para quem não sabe, curso a faculdade de História e este é um dos autores com o qual acabo tendo maior contato. Já li algumas obras dele, que tratam sobre a questão do livro, mas também do Iluminismo e até mesmo sobre medicina. Quando vi a oportunidade de solicitar Censores em ação, não pensei duas vezes.

Aviso de antemão que achei a proposta do autor para esse livro fantástica. A partir de três períodos da história, Darnton procura analisar o processo de censura que ocorria por parte de um setor que possuía influência em toda a sociedade. Censura no que se restringe à práticas de leitura, envolvendo desde a publicação de livros até a circulação do que deveria ser lido. Para isso, o autor se utiliza de uma metodologia praticada entre alguns historiadores chamada de história comparada, pelo qual se realiza uma comparação de um mesmo tema, mas em locais e períodos específicos.

A introdução e a conclusão do livro são extremamente pertinentes, uma vez que são nelas que o autor discute a ideia própria de censura. O ponto de partida é o próprio presente, com a ideia de ciberespaço e internet, pensando a circulação das informações e até que ponto a tecnologia moderna produziu uma nova forma de poder, levando a um desequilíbrio entre o papel do Estado e os direitos dos cidadãos. Além disso, o bacana, em determinando momento, é quando ele questiona a seus alunos o que seria censura, e as respostas são das mais variadas, até mesmo chamar um professor pelo título de professor.

Observações à parte, é na introdução que o autor deixa claro seu extenso trabalho de pesquisa. Nesse sentido é bom salientar que Darnton já possui grande experiência num dos períodos, o que, de certa maneira, facilitou o entendimento do contexto e análise do elemento inserido. A conclusão a qual ele chega de antemão é que a leitura influencia uma sociedade, ou seja, a palavra tem poder. E que os sistemas de censura mostram que a intervenção do Estado no reino literário foi muito além de riscos a lápis feitos no texto. Teve uma ampliação a ponto de influenciar a própria literatura como uma força em ação em toda a ordem social.

O percurso de Robert Darnton tem início na França do século XVIII, onde ser censor era motivo de privilégio perante o rei. E privilégio não deixava de ser o princípio organizador do Antigo Regime em geral. É nesse contexto que ocorrem os exemplos mais dramáticos: a queima de livros, a prisão de autores, a condenação das obras de literatura mais importantes como ilegais. Era por meio de sanções formais conferidas pelos censores da corte que liberavam os manuscritos.

O autor cita alguns casos particulares que ocorreram no período, como o de Guillaume Poncet de la Grave, advogado e homem de letras de baixo escalão. Em 1753, completou um Project des embellissements de la ville et des fauborgs de Paris, um livro que continha um projeto de embelezamento de Paris reformulando os projetos dos espaços públicos. Poncet tentou lançar seu livro por meio de um padrinho influente, pedindo permissão para dedicá-lo ao marquês de Marigny, irmão da Madame de Pompadour e alto funcionário encarregado dos projetos de construção dos prédios da corte. Ele não chegou a lugar nenhum.  Marigny devolveu o rascunho da dedicatória com uma recusa seca. Moncrif, censor responsável pela análise da obra, achava que o manuscrito era perfeitamente digno de aprovação, mas Marigny achava que não. Não queria se envolver com ninguém da corte. Em meio a toda essa discussão, o autor pediu ajuda a Malesherbes, outro censor. No fim das contas, o livro foi publicado e acabou que não ofendeu ninguém e nenhuma pessoa tomou conhecimento de sua existência.

O autor pula direto para o século XIX, época do imperialismo britânico na Índia. Confesso que esse capítulo foi o que mais me chamou a atenção, uma vez que quase não tive discussão nenhuma na faculdade sobre isso e conhecer sempre é bom. Agora é outro contexto, onde o autor percebe nuances no trato do que deveria ser circulado ou não. Mudanças no quesito de uma repressão que surge quando outra força vem contra o imperialismo: o nacionalismo. Quando o imperialismo se revelou um governo por direito de conquista e quando a palavra impressa começou a penetrar mais fundo na sociedade, os nacionalistas levantaram uma reação, os livros se tornaram perigosos e o Raj (instituição britânica imperialista) recorreu à repressão. Desde um simples poema que elencasse elementos da cultura indiana poderia ser considerado um perigo, pois poderia fazer alusão ao sistema imposto.

O último caso é algo mais recente e aqui está a cereja do bolo, na minha opinião. Robert Darnton consegue entrevistar dois censores que moraram e que viveram o período da Alemanha Oriental, na segunda metade do século XX. Nesse momento, os censores entrevistados chegam até a dar opiniões sobre a importância do Muro de Berlim. Além disso, o autor traz editoras que publicavam livros no período e que muitas vezes o autor que escrevia determinada obra era apenas uma ponta do iceberg. Isso se dava pela estrutura ao qual o sistema construía, formada por editores, membros do alto escalão e outros funcionários que determinavam o que deveria e como deveria ser publicado. Em alguns casos, os próprios escritores escreviam junto desses.

Robert Darnton traz à luz uma temática recorrente em nosso cotidiano, e por meio de uma análise cuidadosa mostra contextos e sistemas totalmente diferentes. O material sobre o qual o autor se debruça é fascinante, e sua construção narrativa maior ainda. Deixa claro, de sobremaneira, que até mesmo o significado de literatura era diferente em cada momento, mas que fazia parte de sistemas culturais com configurações próprias. No caso da França dos Bourbon, privilégio; na Índia britânica, vigilância; e, por último, na Alemanha Oriental comunista, planejamento. Para os historiadores, o livro é um prato cheio; aos amantes de história, uma viagem própria a ser realizada!

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


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  1. quarta-feira, 20 de julho de 2016.

    Legal! Não conhecia, não é meu estilo de leitura, mas parece ser enriquecedor!
    Um livro bem didático pelo visto. bj

  2. quarta-feira, 9 de agosto de 2017.

    adorei o texto! Esmiuçou sem se prolongar. Eu tava na dúvida se queria esse livro, acho que ele não é exatamente o que eu tava pensando/procurando. Obrigadão!

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