Avaliação: 4/5 Editora: Companhia das Letras, Cortesia ISBN: 9788535926835 Gênero: Realismo Fantástico Publicação: 2016 Páginas: 232 Skoob

Avaliação: 4/5
Editora: Companhia das Letras, Cortesia
ISBN: 9788535926835
Gênero: Realismo Fantástico, Ficção Africana
Publicação: 2016
Páginas: 232
Skoob

Eu ainda não conhecia a escrita de Mia Couto e decidi ingressar em suas obras através de O último voo do flamingo. A obra já começa de maneira bem curiosa e se passa depois de uma longa guerra civil, em que soldados das Nações Unidas estão em Moçambique para acompanhar o processo de paz e começam a explodir, aparentemente sem nenhum motivo concreto. A história é ambientada na pequena vila imaginária Tiganzara, no sul do país, e se destaca pelo realismo fantástico e linguagem poética do autor.

Quando uma série de explosões acontece, um missionário italiano chega a cidade para investigar os estranhos acontecimentos. Ele é acompanhado por habitante do local, nomeado seu tradutor, e juntos eles começam a desvendar o mistério e a perceber as diferenças entre suas culturas e crenças, já que Tiganzara é uma cidade envolta por histórias de magia e personagens peculiares.

Permeada pelo realismo fantástico, a obra traz críticas a respeito das variadas relações de poder, da colonização, independência, exploração, corrupção, entre outros. Por meio de uma linguagem poética e frases de efeito, o autor coloca, valendo-se também de ironia, diversos questionamentos a respeito desses assuntos. Ainda que envolto em uma névoa de magia, o livro traz histórias de uma Moçambique que acabou de conquistar a sua independência e que, após a guerra civil, ainda tenta se recuperar da influência que os governos autoritários e corruptos deixaram em seu país.

Para contar essas histórias, o autor fala sobre as tradições e crenças locais de uma maneira marcada pela poesia e esperança. A cidade está praticamente envolta numa névoa de magia e algumas coisas não podem ser explicadas, porque simplesmente fazem parte do local, algo que é característico da cidade. Contando as histórias da cidade de forma natural, o autor mostra que essas lendas africanas precisam ser contadas de maneira diferenciada.

A história é muito boa e curiosa, mas devo dizer que demorei algumas semanas para concluir a leitura. Acho que um dos fatores para isso foram as reviravoltas que aconteciam na obra e o surgimento de cada vez mais seres místicos – cada um com sua própria história, devidamente apresentada ao leitor. Isso fez com que eu avançasse lentamente pelas páginas, como uma forma de absorver o máximo possível do livro. Apesar de ter feito isso, será preciso revisitá-la algumas vezes até perceber todas as suas nuances (ou, pelo menos, a maioria delas).

O último voo do flamingo é marcado pelas histórias curiosas, mas principalmente pela crítica que há por trás do livro, que fala sobre como anos de ocupação e ganância podem interferir em uma cidade. Como diz o próprio autor no fim do livro, a obra “fala sobre a perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos”.

Em fins de tarde, os flamingos cruzavam o céu. Minha mãe ficava calada, contemplando o voo. Enquanto não se extinguissem os longos pássaros ela não pronunciava palavra. Nem eu me podia mexer. Tudo, nesse momento, era sagrado. Já no desfalecer da luz minha mãe entoava, quase em surdina, uma canção que ela tirara de seu invento. Para ela, os flamingos eram eles que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo.

_ A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.

Sobre o autor
Camila Tebet Camila Tebet, 22 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Lê de tudo um pouco, mas os gêneros de que mais gosta são os romances românticos e chick-lit. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


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  1. segunda-feira, 18 de julho de 2016.

    Mia Couto tem livros muito bons mesmo. Esse eu nunca li, já está na minha lista.

  2. segunda-feira, 18 de julho de 2016.

    Até hoje eu só li um livro do Mia Couto e gostei muito, e me parece que a poesia no modo de ecrever faz parte das suas características, assim como a crítica social e a observação sobre a relações entre as pessoas. O livro que eu li oi O filho de mil homens, que também é uma narrativa relativamente curta mas assim como você eu tive que reler algumas passagens e me concentrar bastante na leitura para não perder o fio da meada.

  3. sexta-feira, 29 de julho de 2016.

    Oiiie.
    Nossa adorei sua resenha, confesso que pela capa não havia me interessado pelo livro, e logo me lembrei de que não podemos mesmo julgar um livro pela capa. Gostei muito da história, e fiquei muito curiosa com todo o misticismo, magia, culturas, e principalmente pelo que o livro tem a ensinar e criticar.
    Quero ler ele, já foi para minha lista de desejados.
    Beijos…

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