Avaliação: 5/5 ISBN: 978-85-01-10686-5 Gênero: Contos, Infantojuvenil Publicação: 2016 Páginas: 351 SKOOB

Avaliação: 4/5 Editora: Paz&Terra, Cortesia ISBN: 9788577533466 Gênero: Ensaio, Teoria literária Publicação: 2016 Páginas: 168 SKOOB

A Segunda Guerra foi sem sombra de dúvidas um dos maiores acontecimentos do século XX. Abalou estruturas econômicas, sociais e culturais. Dentre os elementos que permearam o período, o Holocausto marcou a vida de muitas pessoas. Marcou tanto que demorou para ser narrado e falado. Primo Levi, judeu que viveu no campo de Auschwitz foi o primeiro que trouxe a tona, em seus testemunhos, as barbaridades e o cotidiano do campo de concentração. Isto é um homem? é o primeiro livro do autor e que marcou uma geração. Os afogados e os sobreviventes, motivo desta resenha, é escrito quarenta anos depois do fim da Segunda Guerra, e é onde o autor retoma algumas das reflexões que ele fez em seu primeiro livro.os afogados

O distanciamento do autor talvez seja um dos pontos mais altos e válidos do livro. Distância em relação ao acontecido. Isso proporciona, na minha opinião, um certo amadurecimento e uma certa reflexão do autor em relação ao Holocausto. Imagina você escrever algo assim que você sai de um campo de concentração e quarenta anos depois? As diferenças são grandes. Você não tem noção do que reserva o futuro, o que será dali para a frente. Quarenta anos depois, já há pessoas falando sobre isso. Trabalhos sendo feitos. Historiadores pesquisando e refletindo o assunto. Já há a construção do acontecimento. E isso fica bem claro na narrativa do autor e um dos pontos fortes do livro, uma vez que Primo Levi é sobrevivente, testemunhador mas ao mesmo tempo consegue olhar de fora, uma vez que ele tem dimensão do que aconteceu e experiências de outras pessoas para compartilhar.

Logo no primeiro capítulo ele deixa claro que a memória é seletiva, ou seja, lembramos aquilo que queremos, que nos deixa mais a vontade ou que nos sentimos maior conforto. Ao mesmo tempo, somos influenciados por outras mídias, que de alguma maneira influenciam nossa maneira de olhar para determinada coisa. Com os sobreviventes do Holocausto, não foi diferente. Nesse sentido, Primo Levi afirma que não se propõe a fazer um trabalho de historiador, apenas relatar algumas questões que ele julga importante.

O livro não segue uma linearidade nem nada. O autor divide por temáticas que ele julga importante e a partir disso desenvolve suas reflexões. Traz para conhecimento do leitor algumas experiências as quais ele passou ou que ouviu falar, ao mesmo tempo em que tenta responder algumas questões. Por exemplo, quando questionado o porque de nunca ter havido rebeliões por parte dos judeus, ele disse que houve sim, mas que nunca conseguiram chegar ao objetivo final que era a fuga. Além disso, afirma que os judeus, na medida do possível, tentaram se adequar ou se relacionar de tal maneira que melhorasse a situação a qual estavam inseridos, gerando assim uma hierarquia logo dentro do próprio campo de concentração. Eram obrigados a fazer o trabalho sujo, e isso servia para que lembrassem de sua situação e degradação moral. Como não recusar, caso aquilo representava a sobrevivência ali nem que por algumas semanas a mais?

É importante lembrar que ao entrar no campo, as pessoas perdiam sua identidade, se transformando em apenas um número. Além disso, não sabiam o que lhes reservava o futuro. Hoje sabemos que o final era as câmaras de gás. Mas no período, não tinham noção. Não obstante, habitantes que moravam em cidades próximas aos campos não faziam a mínima ideia do que acontecia. Outro ponto destacado pelo autor é quando questionado acerca da postura de Hitler: ele é claro em dizer que o Füher foi responsável por uma doutrina e que houve uma população que o seguiu e acreditou em suas palavras. Outrossim, Primo Levi critica a representação do fim da guerra veiculado em filmes e romances, ao qual se retrata o fim do sofrimento e o reencontro com os parentes e amigos. Só que era exatamente o contrário. O cenário era marcado pela emergência de sentimentos como angústia, pela família perdida e pelo cansaço ao qual havia sido consumido toda a vida e a alegria; e vergonha, por não ter feito nada, de não ter tomado uma postura, por não ter socorrido seus iguais quando poderia. Por isso, o respeito pelo qual Primo Levi tem com os sobreviventes quando estes não querem falar sobre o que aconteceu. São imagens que voltam a sua mente, como se um filme estivesse passando.

Esses são alguns dos pontos que o autor traz em sua narrativa. Poderia ficar aqui horas e horas falando sobre ele. Por outro lado, vou dizer o seguinte: leiam! É algo que deve ser lido, pensado e lembrado. Serve para refletir sobre nossas atitudes na sociedade atual. Uma das reflexões finais do autor é se haveria a possibilidade de outro acontecimento da proporção desta acontecer novamente. Primo afirma que isso não havia possibilidade de acontecer, apesar de que pode se sinalizar alguns pontos precursores, como a violência, que está sob nossos olhos no dia-a-dia. Logo, afirma que devemos despertar nossos sentidos, desconfiar dos profetas, dos ilusionistas, daqueles que dizem e escrevem bonitas palavras não apoiadas em boas razões.


 

Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: