quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O_PASSARO_DO_BOM_SENHOR__1447795010537170SK1447795010B
Avaliação: 4/5
Editora: Bertrand Brasil | Cortesia
ISBN: 9788528620405
Publicação: 2015
Páginas: 378
Skoob

O que mais me chamou a atenção quando solicitei O pássaro do bom senhor foi a história em si, mas também o próprio contexto que o livro tem como pano de fundo. Além do mais, temos um narrador um tanto quanto diferente, afinal é uma criança que é a narradora. Para aqueles que não sabem, curso História e o período da escravidão sempre é tratado com certos estereótipos e visões previamente determinadas, logo o interesse pela leitura. Quando o livro chegou e vi que o autor que é negro, a curiosidade em ler foi maior ainda, uma vez que fiquei pensando em como ele, do século XXI, contaria uma história de centenas de anos atrás. A surpresa foi melhor do que eu esperava.

 
John Brown é um personagem que ganha as páginas desse livro junto de Henry Shackleford, um menino escravizado no território do Kansas em 1856, período em que a região se tornou um campo de batalha entre forças contrárias e favoráveis à escravidão. O caminho dos dois se cruza quando John chega ao Kansas e ocorre um conflito entre ele e o dono de Henry, que acaba tendo um resultado violento. O garoto, por sua vez, é obrigado a deixar a cidade na companhia do abolicionista, que o toma por menina. Brown apelida o menino de Cebola, tornando-o seu amuleto e, este, por sua vez, tentando se salvar, oculta sua verdadeira identidade. A jornada dos dois seguirá percursos diferentes e difíceis, até chegar ao ataque histórico e trágico a Harpers Ferry, um dos grandes catalisadores da Guerra Civil norte-americana.
 
O livro de James McBride, pelos comentários lidos, foi premiado e recebe inúmeras críticas positivas. Tudo estava a favor de eu gostar da leitura. Porém, aviso de antemão que a leitura é densa e um pouco cansativa. Isso não tira o mérito do livro, apenas não é uma opção para se ler na praia ou algo do tipo. A história já começa de uma maneira que gostei bastante, dando um caráter mais fidedigno a história: é com um documento que fala brevemente sobre Henry e John e a relação de ambos na região, mas deixa claro que não se sabe muito sobre o primeiro, supondo que o garoto poderia ter existido ou não. 

A sacada de escrever em primeira pessoa e sob a perspectiva de Henry foi outro mérito do autor. É por meio disso que podemos compreender a vivência de Henry diante de um sistema tão cruel como foi o da escravidão. Seus anseios, suas observações e suas opiniões. Tudo isso com um toque infantil de ingenuidade, mas ao mesmo tempo de alguém que precisa crescer e agir se quiser realmente viver. O fato de ser “confundido” com uma garota e passar a assumir essa identidade só vem confirmar isso. Ele vê que ali ele pode estar levando uma vida tranquila e viver sem medo, ao contrário de muitos outros na mesma situação que a dele. Além disso, a própria maneira de se enxergar em relação aos brancos é motivo de reflexão. Ele vê que ele, sendo um negro, não tem os mesmos direitos que um branco teria. E este, por sua vez, vê no negro apenas um objeto a ser utilizado.
 
A história tem um ritmo mais lento, o que fez com que eu demorasse mais do que o esperado para realizar a leitura. O título foi curioso para mim, e a justificativa é dada ao longo do livro, achei muito bacana a proposta. Não se tem um ápice, mas apenas vivências que devem ser conhecidas para que possamos repensar nossas atitudes diante da sociedade que vivemos. A história se passa no século XIX, mas as discussões acerca ainda estão bem presentes hoje em dia. A leitura de O pássaro do bom senhor proporciona diversas reflexões sobre o assunto. Leitura mais que recomendada!

“Ser negro significa mostrar sua melhor cara todo dia pro homem branco. Você conhece suas vontades, seus desejos e observa bem. Mas ele não conhece as suas vontades. Não conhece os seus desejos, seus sentimentos e o que há dentro de você, pois você não é igual a ele em nenhum aspecto. É só um crioulo para ele. Uma coisa, como um cachorro, uma pá ou um cavalo. Seus desejos e vontades não têm espaço nenhum, seja você menino ou menina, homem ou mulher, tímido, gordo, alguém que não gosta de biscoitos ou não aguenta muito bem as mudanças do tempo. Que diferença faz? Para ele, nenhuma, pois você vive no fundo do poço.”

Por Lucas Kammer Orsi 
Sobre o autor
Lucas Kammer Orsi
Lucas Kammer Orsi Estudante de História. Vê nos livros uma maneira de fugir da realidade e encontrar um pouco de aconchego do cotidiano tão corrido. Potterhead, se emociona fácil com romances, mas não deixa de lado um bom suspense, de viver uma aventura e dá gargalhadas com um chick-lit. Está sempre com suas séries atrasadas, mas isso não o impede de sempre começar mais uma. Amante da música pop, é grande fã de Taylor Swift.


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