AVALIAÇÃO: 4/5 EDITORA: JOSÉ OLYMPIO, CORTESIA ISBN: 9788503012485 GÊNERO: ROMANCE, FICÇÃO HISTÓRICA, CLÁSSICO PUBLICAÇÃO: 2015 PÁGINAS: 252 SKOOB

A publicação do “novo” livro de Harper Lee, depois de muitos anos sem previsão de lançamento, já seria suficiente para me deixar com vontade de realizar a leitura, até porque a autora era considerada “mãe de filho único” até o momento. Porém, o que mais me deixou com vontade de ler a obra foi a polêmica em torno de sua publicação. Para quem não sabe, Vá, coloque um vigia foi escrito antes de “O sol é para todos“, seu renomado livro, ganhador do Pulitzer. Na época, seus editores aconselharam que ela transformasse a história do primeiro livro e recontasse a partir do ponto de vista de uma protagonista criança. Depois de lançada a segunda versão e seu arrebatador sucesso, a autora decidiu que nunca mais iria publicar a primeira. Até que, há poucos meses, tudo mudou de figura. O lançamento foi anunciado, com dúvidas se a autora estaria lúcida o suficiente para consentir a divulgação da história, e versões que acusam a advogada de Lee por estar se apropriando e se aproveitando do estado frágil da autora.

Enfim… comecei a leitura com um pé atrás depois de todos os comentários que eu havia lido. Além da polêmica “interesse vs consentimento”, eu já sabia que haveria a desconstrução de um personagem importantíssimo de “O sol é para todos“, idolatrado por muitos fãs da obra. Confesso que esse foi um ponto que também me deixou decepcionada, mas, ao contrário de muitas pessoas, achei que a reviravolta foi bem pertinente para a construção da história.

O livro começa com uma Jean Louise adulta, com seus 26 anos, chegando para uma visita em sua cidade natal Maycomb. Assim que chega ao local, ela encontra-se com o velho amigo Henry, que ela já passa a considerar como um pretendente. Fazia um tempo que ela não via o pai e estava ansiosa para o reencontro. Conforme ela revê os moradores, os familiares e os locais onde passou a sua infância, seus dias passam a contar com muitas memórias nostálgicas, das travessuras e bons momentos de quando era pequena.

Passam-se os dias e cada vez mais Scout conclui que Maycomb é uma cidade muito atrasada. Em Nova York, onde mora atualmente, o ritmo é outro. As mulheres trabalham, não importam-se apenas com as aparências, as vestimentas e costumes são diferentes, além de que a tolerância é muito maior. Scout fica horrorizada ao ver que ainda há muito preconceito contra os negros, tratados como lixo por muitas pessoas que ela conhece desde criança.

Qual não é o seu horror ao descobrir que o pai e o ‘quase noivo’ Henry frequentavam as reuniões do “Conselho de Cidadãos do Condado Maycomb”, onde palavras sórdidas eram proferidas contra os negros? O conselho acreditava – e ela mal podia acreditar nisso – que os negros eram pessoas inferiores, com cérebros menores, além de uma série de outros insultos. Após essa descoberta, Scout terá que repensar toda a sua vida e ideais, já que desde sempre pensava no pai Atticus como uma das pessoas mais íntegras e justas que já conhecera.

Harper Lee coloca em sua obra uma forte lição contra o preconceito. Muitas coisas horríveis são ditas contra os negros em uma sociedade que se considerava honesta e digna. Isso só comprova a hipocrisia que existia na época – e infelizmente ainda é praticada por muitas pessoas, o que torna a obra muito atual. Como eu disse anteriormente, fiquei decepcionada ao constatar que Atticus não é uma pessoa perfeita, mas sim alguém que conta com qualidades e defeitos, mas achei que isso foi extremamente necessário para o desenrolar da obra.

Mais do que a desconstrução do preconceito racial, há a desconstrução da personagem principal. Com 26 anos, ela ainda está muito enraizada nos ideais da própria família, precisa crescer para ter sua própria identidade. É isso o que o livro traz – um choque cultural para que a protagonista possa amadurecer, se desvincular do passado e fazer seus próprios julgamentos e críticas.

Ainda que não tenha superado “O sol é para todos“, esse também é um ótimo livro e superou minhas expectativas. Acho que é um tapa na cara de algumas pessoas que ainda hoje acreditam que existam pessoas melhores ou piores do que as outras, e que faz refletir sobre diversos temas. A narrativa também é envolvente e fácil de acompanhar, fazendo com que a leitura se desenvolva rapidamente. A edição segue a linha de “O sol é para todos“, relançado este ano no Brasil. A capa é linda, e as cores escolhidas também. Dentro não há nenhum detalhe gráfico, mas ainda assim é uma edição que vale a pena. Recomendado!


Conheça os outros títulos da duologia O sol é para todos :

1. O sol é para todos  (2015)

2. Vá, coloque um vigia (2015)

Sobre o autor
Camila Tebet Camila Tebet, 22 anos (05/06) – Paraná Jornalista, tem a literatura como uma de suas paixões. Acredita que os livros têm o poder de transformar e falar sobre essa arte é um de seus passatempos favoritos. Lê de tudo um pouco, mas os gêneros de que mais gosta são os romances românticos e chick-lit. Entre os seus livros favoritos estão "Harry Potter" (é claro), "Na Natureza Selvagem", "Orgulho e Preconceito" e "A Menina Que Roubava Livros". Também é apaixonada por séries, cinema e fotografia. Escreve também para o site www.expressocultural.com.


Deixe uma resposta

  1. sexta-feira, 20 de novembro de 2015.

    Olá Camila!
    Não li nenhum dos dois, mas este me pareceu mto interessante.
    Primeiro por tratar a questão de preconceito de raça e segundo pq me identifico com histórias que trazem conflitos para que as personagens possam se conhecer e revelar…

    Ótima resenha…
    Bjo
    =]

  2. sábado, 21 de novembro de 2015.

    Oi Camila,

    Fiquei curiosa pelo livro primeiro porque não conhecia, e depois que sua resenha está ótima e mostrou que o livro contém um tema bem forte. Dica anotada.

    Bjos

    http://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com.br/

  3. domingo, 22 de novembro de 2015.

    Não sabia dessa história por trás do livro e já estou sedenta de vontade… Eu li O sol é para todos e apesar de algumas ressalvas, curti bastante.

  4. domingo, 22 de novembro de 2015.

    Olá! Poxa esses dias tentei comprar o Sol é para todos, mas não consegui. E agora vejo que tenho mais um para minha listinha. Também não sabia desta história por traz dos livros. E penso ser muito interessante quando alguém compartilha.

    Linda resenha e muito grata pela informação!
    Abraços!
    http://www.pensamentosvalemouro.com.br

  5. segunda-feira, 23 de novembro de 2015.

    Oláá
    Assim como você, também adorei a leitura mas nem de longe superou O Sol é Para todos, sua resenha etá ótima e também adoro as capas, são lindas demais, ótima resenha e dica

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

  6. quarta-feira, 25 de novembro de 2015.

    Bom, não tem como esperar nada além de excelente da autora. E sua resenha sincera me fez ter muita vontade de ler, parece ser muito, muito bom, temática de importante discussão. Beijos

  7. quarta-feira, 2 de dezembro de 2015.

    Oie. Achei a capa linda também! Tenho vontade de ler "O Sol é para todos" mas fiquei em dúvida de uma coisa sobre a sua resenha: Você recomenda oler este livro antes de ler o sol é para todos, já que ele é o primeiro livro, ou isso não tem nada a ver?
    Beijos
    relicariodepapel.wordpress.com

  8. quarta-feira, 2 de dezembro de 2015.

    Oiii flor,
    Não li O sol é para todos e me sinto um E.T. por causa disso, tenho vontade de ler e seus rápidos comentários sobre ele me deixaram com mais vontade. Esse que você resenhou não me atraiu tanto mas não descarto uma leitura futura.

    Coração Leitor

  9. segunda-feira, 7 de dezembro de 2015.

    Oi Camila,

    Fiquei pensando na decepção da Scout, com certeza eu enfrentaria a mesma decepção e iria querer comprar a briga e defender a minoria, claro, afinal pré-conceito para minha cabeça é demais e não aceito mesmo.
    Camila, adorei a sua reflexão sobre a questão do preconceito nos dias atuais, às vezes velado, às vezes descaradamente assumido e tudo isso me decepciona e enoja, pode ter certeza disso. Nunca acreditei que alguém seja melhor que o outro e independente da maldita condição social que muitas acham que diferenciam pessoas de outras.

    Beijos
    Tânia Bueno
    http://www.facesdaleitura.com.br

  10. sábado, 12 de dezembro de 2015.

    Olá!
    Menina nunca li livros que tratasse sobre o preconceito racial. Embora que estamos no século XXI, ainda nos deparamos com esse tipo de atitude, sendo raizada em diversos países. Eu sou contra esse tipo de postura e de alimentar que a importância da existência do outro está em sua cor.
    Beijos
    Ariana Silva
    http://ariabooks.blogspot.com.br/

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