Eddard Stark

Se imagine criando um mundo. Um mundo completamente novo, inexistente.

Não precisa ser fantasioso, com leões que falam, bruxos que manuseiam varinhas e falam frases rimadas, ou até mesmo ter deuses gregos. Imagine-se criando um mundo, que pode ser tão real e vívido quanto o nosso. Um mundo com homens egoístas, que possuem sempre um único fim: a vitória, o poder, a honra, o dinheiro. Um mundo tão real quanto a vontade do capitalista de possuir bens, glória. Um mundo que evolui, não só com o corpo feminino sendo manuseado através dos séculos ou o fim da política sendo mudado da expansão de Roma às guerras de Esparta, do poder centralizado da Igreja Medieval ao incentivo à Ciência da Idade Moderna, da necessidade de se produzir mais e mais, à novamente se expandir para o totalitarismo e à guerra. Imagine-se criando um mundo completamente novo, completamente real, completamente possível. Completamente seu.

Foi isso que George R. R. Martin fez. Ele criou um mundo completamente dele. Completamente possível. Completamente mutável e que, além de tudo, evolui. Evolui como o nosso mundo evoluiu com as religiões, que deixaram de ser politeístas na Grécia e no Egito, na Roma e com os Vikings, e passou a ser monoteísta com na Idade Média com a Igreja Católica, ou com Islamismo de Maomé. Um mundo totalmente real, totalmente aceitável, totalmente vivível. 

A série da HBO Game Of Thrones, nome do primeiro livro da série As Crônicas do Gelo e do Fogo, de George R. R. Martin, é uma das séries mais aclamadas mundialmente. Não é só pelo fato de ser complexa. Não é só pelo fato de ser verdadeira. É também pelo fato de ser fiel com o mundo real. No mundo real, heróis morreram, revoluções não deram certo, mentiras aconteceram, o mal venceu. Afinal de contas, quem seriam Mandela, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Dalai Lama, se o bem sempre vencesse? 

Esse é um dos diferenciais do mundo de George R. R. Martin. O mundo de Westeros, criado por ele, é um dos únicos mundos da fantasia em que heróis perdem batalhas. O mal vence o bem. Heróis morrem. Esse mundo é exatamente como o nosso. Um herói não morre e renasce. Um herói não luta com cem homens e vence a batalha, como uma mágica. Dizem que Martin é um assassino, pois mata quem mais gostamos. Infelizmente, tenho de discordar da maioria. Martin não é um assassino. É um realista, porque se não fosse, John Lennon poderia estar entre nós ainda, certo?


É inimaginável pensar em um mundo como Westeros, até quando você começa a ler os livros da série. Estudiosos e reis da literatura já tentaram encontrar falhas nesse mundo, mas não conseguiram. Não há falha. Martin e sua mente brilhante não esqueceram de um só detalhe do que um mundo real precisa. Martin criou religiões, dialetos, heróis, violões, reis, reinos, guerras. Um homem, e apenas um, George R. R. Martin, conseguiu criar um mundo COMPLETO. Um mundo inteiramente novo. 
Fico imaginando de onde suas ideias vieram, e, cada vez que penso nisso, mais chego à conclusão de que elas vieram do nada. Do lugar algum. Do vazio. Quando um escritor senta na frente da tela do computador para escrever sobre algo, na maioria das vezes ele não tem noção do que irá acontecer. É claro que vagas ideias surgem em sua mente, mas ele nunca sabe, de fato, como será o fim dessa história. 

Martin disse que passou anos pensando em escrever Game Of Thrones. Depois de escrever a série Wild Cards, que ele deseja voltar a nos contar quando terminar o sétimo livro da série As Crônicas do Gelo e do Fogo, ele disse que passou a amadurecer a ideia desses livros. Uma dessas ideias, e aqui vai um choque para os fãs da série e que não sabem dessa “notícia”, é que ele pensava em criar um triângulo amoroso entre Jon Snow, Tyrion Lannister e Arya Stark. Isso mesmo. Recentemente li uma notícia que mostrava uma carta de George Martin a seu editor, poucos anos antes de publicar o primeiro livro da série, em 1996, contando exatamente isso.

De qualquer forma, como eu ia dizendo, Martin idealizou esse mundo completamente novo, tomando como base o nosso mundo medieval. É por isso que personagens chave da história, como Robb Stark, John Snow, Daenerys Targaryen, Viserys Targaryen, Arya Stark e Jofrey Baratheon são tão novos. Na época medieval, crianças (pelo menos para nós hoje) de 13, 14 anos, já eram considerados quase adultos. É por isso que faz sentido Robb, de 15 anos, governar um exército quando seu pai, Eddard Stark, é decapitado pelo rei dos Sete Reinos. É por isso que é aceitável o casamento de Daenerys Targaryen (nome lindo), de 13 pros 14 anos, com Khal Drogo. Tudo nesse mundo é aceitável. Porque é um outro mundo real. 

Para quem não sabe, tentarei explicar essa obra complexa em alguns parágrafos. A Guerra dos Tronos, primeiro livro da série de sete (o sexto e o sétimo ainda não foram publicados), conta diversas histórias de reinos, no mundo de Westeros. O conceito de Família e Dinastia, muitíssimo valorizado na Idade Média, não deixou de aparecer nas obras de Martin, e é por isso que não há um, dois, três ou quatro personagens principais, e sim quatro FAMÍLIAS principais, essas são; os Baratheon, os Stark, os Lannister e os Targaryen.

Martin disseca e detalha ao longo do livro como Robert Baratheon, com a ajuda de Eddard Stark, tomou o treino de ferro da família Targaryen, e como a amizade desses dois homens honráveis se fortaleceu nesse tempo. Assim como no nosso mundo, o mundo de Westeros tem histórias de antepassados. Histórias sobre como reis governaram e deuses guiaram inteiras civilizações. George Martin nos narra esses eventos enquanto narra a história “atual” para nos apresentar esse mundo criado por ele. De qualquer forma, sabemos desde o início que a família Baratheon, com o rei Robert, está no trono dos Sete Reinos, junto com a família Lannister, por conta da rainha Cersei, mulher de Robert. É logo no início do livro que a primeira morte acontece. A morte da mão do Rei, que era seu braço direito e conselheiro. Por conta disso, o rei Robert viaja à Winterfell, terra comandada pelos Stark há milhares de anos, com o propósito de convidar seu fiel amigo Eddard a ser sua Mão. 

A linhagem familiar dos Stark, Targaryen, Baratheon e Lannister.

E agora, acho melhor falar das pessoas que compõe essas três famílias:

Lannister: Rainha Cersei, Jaime (irmão da Rainha, chamado de Regicida), Tyrion (irmão anão da Rainha, chamado de Duende), Jofrey (filho da Rainha, herdeiro do Trono de Ferro, que também é chamado de Sete Reinos), Myrcella (filha da Rainha) e Tommem (filho da Rainha).

Baratheon: Rei Robert, Renly (seu irmão mais novo), Stannis (seu irmão mais velho), e seus filhos; Jofrey, Myrcella e Tommem.

Stark: Eddard e sua mulher, Catelyn, seus filhos; Robb (herdeiro de Winterfell), Bran, Arya, Sansa e Rick. Além do filho bastardo de Eddard, Jon Snow.
Apresentadas as famílias, agora podemos contar um pouquinho da história que tanto fascina os fãs da série na HBO, e os fãs na série dos livros. Com sorte, faremos você amar tanto uma, quanto a outra.

É nas criptas de Winterfell, onde os ossos de todos os ancestrais da família Stark estão enterrados, que o Rei Robert Baratheon convida Eddard Stark para ser sua Mão. É importante falar também que, assim como na Idade Média, há muitas formalidades em Westeros, como; existir toda uma preparação para a chegada do Rei, existir toda uma formalidade sobre como se dirigir ao Rei e toda uma formalidade para se aprender a não recusar um convite do Rei. De qualquer forma, como íamos dizendo, Robert convida Eddard para ser sua Mão e, é nesse momento que George Martin começa as transgressões sobre o que aconteceu no passado. Descobrimos que os dois lutaram juntos para tomar o Trono de Ferro e também descobrimos que Robert era apaixonado pela irmã morta de Eddard, fato que os uniu no passado. Eddard, de início, pensa em recusar o convite, pois nunca antes Winterfell ficara sem um governante. Mas depois, resolve aceitar, e os dois homens acabam, por fim, arranjando uma maneira de unir as duas famílias com o casamento prometido de Sansa Stark com Jofrey Baratheon. 

Depois de Eddard conversar com sua mulher, Catelyn, e decidir que ela teria de ficar com seus filhos, Robb, Bran e Rick, para que Winterfell tivesse um governante, é oficializado o dia da ida de Eddard para Porto Real, a sede do governo. Um longo capítulo é narrado no livro e Bran é apresentado (outra característica brilhante de George Martin é o fato de ele criar inúmeros personagens com pontos de vista. Cada capítulo é narrado com o ponto de vista de um personagem, e isso enriquece, e muito, a história). Bran, filho de Eddard, era um garoto de 8 ou 9 anos, que amava escalar os muros do castelo de Winterfell. Sempre corria feliz, o dia inteiro, e já tinha prometido várias vezes à sua mãe que iria parar de escalar os muros. 

As respectivas cortes.

Contudo, jovem e teimoso como era, e teimoso no sentido de ser criança e querer aproveitar a vida, Bran estava escalando as paredes do castelo quando ouviu um barulho estranho. Resolveu se aproximar e, para seu susto e desespero, a Rainha Cersei estava em um dos quartos da torre, transando com seu irmão, Jaime Lannister. Isso mesmo. Algumas famílias, tanto no nosso mundo, quanto no mundo de George Martin, gostavam de manter seu sangue “puro”, e para isso, eles acabavam se reproduzindo entre eles. 


Quando Bran vê os dois transando, fica paralisado. A Rainha estava não só traindo o Rei, mas como estrava traindo ele com seu próprio irmão! Quando Jaime notou Bran na janela, não pensou duas vezes e, com as seguintes palavras: “O que não faço em nome do amor”, empurrou o pequeno Bran, que saiu voando… voando…

Bom, é aqui que acaba o primeiro episódio da primeira temporada da série Game Of Thrones, na HBO. No livro, estamos perto da página 150. O importante em saber desse fato é porque ele vai conduzir a história do livro inteiro, e vou além, esse fato vai conduzir a história da série inteira. Porque é através dele que os Stark desconfiam dos Lannister, e é por causa dessa desconfiança que que tramas INIMAGINÁVEIS começam. A verdade é que esse livro é muito rico, muito complexo e muito inesperado. 

Bran entra em coma, e é por isso que ninguém consegue descobrir como ele caiu da torre, mas de uma coisa Catelyn e Eddard sabiam; algo tinha lhe empurrado, porque ele NUNCA caia. Eles conheciam seu filho. De qualquer forma, Catelyn recebe uma carta de sua irmã, a mulher da Mão do Rei que havia morrido, que lhe dizia para ter desconfiança dos Lannister, pois ela achava que eles estavam envolvidos na morte de seu marido.

Bem, acontecem tantas coisas que é difícil contar. Já estou no quarto livro da série, e belas 5000 páginas adiantadas desse fato. E cada vez mais estou apaixonado pela capacidade de Martin em criar tramas. É realmente emocionante, pelo para mim, que sou apaixonado por Literatura, ler as páginas escritas por esse homem. Para quem não sabe, ele já foi considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. 

Nosso objetivo não é detalhar os livros, mesmo porque ficaríamos séculos aqui, porque cada livro tem aproximadamente 1000 páginas. Acho que o objetivo era apresentar essa história, e criar um paralelo com a série na HBO. 

George Martin trabalhou em Hollywood por 10 anos, e sabia que sua série não iria dar certo lá. Seja pelo fato de não ser possível criar filmes com tantos detalhes como o livro, ou pelo fato de Hollywood não ter capacidade de arcar com uma série tão complexa quanto essa. Foi por isso que depois de inúmeras reuniões, George Martin acertou com David e Dan, os diretores da série na HBO. Lá, na HBO, eles podem fazer tudo que está no livro, porque a HBO é um canal pago, e qualquer um que queira ver a série da maneira como é, a verá.

Um fator importante para a série ser na HBO, e não nas filmagens de Hollywood, é o de que a história dos Targaryen, história paralela às do Stark e dos Lannister, é muito real e detalhista. Sincera e completamente forte. Conta a história dos últimos dois Targaryen vivos, a Daenerys e o Viserys. O que acontece é que Viserys resolve casar sua irmã com Khal Drogo, o Rei dos Dothrakis (essa história acontece do outro lado do mar de Porto Real, por isso o rei do Trono de Ferro não tem tanta influência; seria como se os reinos feudais quisessem se intrometer nos assuntos dos Vikings). Daenerys tinha apenas treze anos e cenas de sexo e mulheres nuas (tradição dos Dothrakis) são muito detalhadas. Somente a HBO permitiria mostrar tais cenas na TV – embora Robb, Daenerys, Viserys, Jon Snow, Sansa e Jofrey sejam mais velhos na série do que nos livros.

De qualquer forma, os livros são perfeitos. Completos e complexos. Martin pensou em tudo, criou religiões, mitos, rituais e cerimônias. Criou também uma divisão chamada de Patrulha da Noite, onde homens que desejassem proteger os Sete Reinos poderiam se fidelizar para sempre, se privando do casamento e da família. Esses homens da Patrulha da Noite ficavam na Muralha, uma enorme parede, de mais de 200 metros de altura, que foi construída pelos homens antigos para proteger os reinos dos selvagens, que ficavam “para lá da muralha”. Estou contando essa parte porque o bastardo de Eddard, Jon Snow, se tornou um homem da Patrulha da Noite, e ele é um dos personagens com pontos de vista, tão importante quanto todos os outros. 

Aliás, a pergunta que todos os estudiosos sobre a série se faz é: quem é a mãe de Jon Snow? Outros, com leituras mais avançadas e com estudos em cima dos livros mais cautelosos, se perguntam; Quem são os pais de Jon Snow?

De qualquer maneira, acho que David e Dan superaram qualquer expectativa prevista por George Martin. Eles estão conduzindo a série de uma forma espetacular. São bastante fiéis, e, quando resolvem modificar alguma cena, modificam com classe. Com sabedoria. Uma das cenas mais fortes da primeira temporada, a cena em que Khal Drogo luta contra um de seus vassalos, e acaba arrancando sua língua através de sua garganta, não tem no livro. E essa cena foi SENSACIONAL. Por vezes me peguei tentando escrevê-la, para ver como ficaria no livro. Outra, tão boa e importante quanto, é quando Eddard Stark está indo para o grande sertão, em Porto Real, pois tinha sido condenado como um traidor do Rei. Na série, Eddard tem um último ato heroico, que é quando ele vê Yoren e aponta para Arya, como se dizendo “Salve minha filha”. Logo depois disso, ele é decapitado pelo Rei – foi uma cena que me fez chorar. Esse ato heroico, o ato de Eddard apontar para a filha, não acontece no livro, embora Yoren a tenha visto e salvado mesmo assim.

Muitos podem se perguntar como a história pode ter chegado nesse ponto. E estão certos, afinal; Como Eddard seria condenado traidor se era amigo do Rei? Porque o Rei o decapitou? Porque a Arya corria perigo? 

Bem, o que podemos dizer para vocês é o seguinte: Não acredite apenas no nome Rei, quando falamos sobre Game Of Thrones, porque o Rei pode morrer ou perder o trono em questão de capítulos. Outra coisa, não acredite que seus heróis sobreviverão sobre todo e qualquer mal que possa lhe acontecer. Ele também não vencerá batalhas invencíveis e não irá salvar a todos.

Além disso, esqueça o fato de que somente o bem vence. Porque você vive em um mundo real, e acredite quando eu digo; Westeros é muito parecido com o mundo que você vive. 
Sobre o autor
Viagens de Papel O blog Viagens de Papel foi criado em 22 de janeiro de 2013 com o intuito de promover diálogo sobre literatura, paixão que todos os autores do projeto têm em comum. Através de resenhas, lançamentos, listas, dicas e variadas matérias, queremos que você sinta-se em casa e aprecie o conteúdo nosso conteúdo! =)


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  1. sexta-feira, 20 de março de 2015.

    Oi!
    Nossa que legal '-' nunca parei pra pensar assim, essa última frase realmente deu valor ao texto XD

    http://meubaudeestrelas.blogspot.com.br/

  2. sábado, 21 de março de 2015.

    Caio, tô completamente encantada com esse seu post! Como fã enlouquecida de ASOIAF que sou, li cada frase com um sorriso no rosto! Vc conseguiu explicar em poucas palavras (tá, nem tão poucas assim), tudo o que circunda a história de Martin, abarcando livros e série de forma magistral! Parabéns. Amei mesmo!

    http://maisumapaginalivros.blogspot.com.br/
    Mais Uma Página

  3. sábado, 21 de março de 2015.

    Olá Michelly! Fico feliz que gostou do post, essa foi a intenção ahahah, não só para os que já são fãs de Martin e da série, mas também para aqueles que ainda não a conhecem ou ainda não leram os livros. Obrigado pelo comentário!

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