sábado, 14 de Fevereiro de 2015


Hoje na nossa coluna de poesia mensal eu gostaria de apresentar uma poeta que provavelmente poucos de vocês conhecem, mas que com certeza é uma das que eu mais admiro, ela se chama Marquesa de Alorna e está situada naquela época do Barroco, por volta do século XVIII. Aí vai um poema dela pra conversarmos sobre.

Estando presa em Chelas

Escuro Céu, cravado de diamantes,
Onde o leite de Juno em soltas gotas
Reluz, desde essas plagas tão remotas,
‘Té aos olhos dos térreos habitantes.

Se o reflexo dos astros cintilantes
Tão longe dividindo os ares brotas,
Saídos das entranhas minhas rotas
Cheguem lá meus suspiros anelantes.

Tu, que reges o mundo, Autor de tudo,
Ouve o aspérrimo som desta cadeia,
Envergonha com ele o Fado rudo.

Manda cá aba’xo, alguma Semideia,
Não Mercúrio, nem Hércules membrudo
Se quiseres soltar-me manda Astreia.
Marquesa de Alorna foi uma alta aristocrata portuguesa que teve uma vida muito singular e, em seu início, conturbada. Sua família toda foi presa por um mal entendido na época do Antigo Regime de Marquês de Pombal, desta forma, ela ficou encarcerada em um convento por 18 anos, passando sua infância e adolescência sem contato com a família e sociedade. Teve uma boa educação apesar disso, não se deixando abater pelas circunstâncias e o isolamento. Devido à veia poética sempre muito latente, seu pai fazia de tudo para manter sua filha sempre instruída, mandando cartas escondido escritas com seu próprio sangue com indicações de leitura para que ela não ficasse alienada dentro do convento e desenvolve-se seu talento.


Com a queda de Pombal a Marquesa e sua família saem do cárcere e a partir daí começa uma vida completamente diferente e glamorosa. Ela se casa, torna-se influente na sociedade, é tradutora além de poeta, viaja o mundo todo, é amiga de grandes personalidades como Maria Antonieta, Mozart e se corresponde até com o Papa. Mas o que realmente é digno de nota nesta mulher não é esta vida cheia de reviravoltas, e sim o que ela fez com elas. Ela foi uma das primeiras mulheres a se posicionar politicamente, um lugar que até mesmo os homens muitas vezes não assumiam. Durante toda a sua vida foi influente, tomando um lugar que nunca havia sido das mulheres.

Este poema é um dos tantos que a Marquesa mostra sua força, talento e crítica. Chelas é o nome do convento onde ela foi presa na juventude, este poema é escrito neste início da produção, na época do encarceramento, ainda extremamente jovem. Ela começa na primeira estrofe constatando sua pequenez e desamparo diante do imenso universo, citando a lenda de Juno. Na mitologia, o leite de Juno corre ao contrário formando a Via Láctea, justificando seu nome.

Mais adiante, na terceira estrofe, ela ousa, como em toda sua produção e vida, rompendo a hierarquia da tradição cristã e conversando com Deus, mas o chamando de tu e não de vós.

Por fim, devido à injustiça de seu encarceramento, fala da prisão mostrando uma indiferença e consciência fantásticas, incríveis para uma adolescente. Como uma indireta para Pombal, para mostrar que mesmo presa ela não irá se abater, ela faz o inesperado, em vez de reclamar a liberdade por direito, ela fala para Deus que não quer ser solta se esta soltura ocorrer pela força ou pela persuasão (representada pelos deuses), mas se for para ocorrer, que seja pela razão, que não seja pelas mãos de um deus homem e sim por uma deusa, uma mulher, Astreia a deusa da razão e justiça.

Extremamente atual, forte, feminista, racional, liberal, Marquesa sempre me surpreende e inspira, sendo um espírito tão grande em pleno século XVIII, sempre consciente e precisa. É só uma pena que ela hoje esteja fora do cânone e praticamente ninguém a conheça. Espero que vocês tenham gostado de conhecê-la. Ela escreveu e se posicionou durante toda sua longa vida (vivendo até os 88 anos), e fez grandes feitos que aqui não poderei me alongar, tendo uma vasta e brilhante produção de poesia e importantes ideologias.

Deixe nos comentários sua opinião! E também, há autores que você gosta, porém que foram esquecidos e injustiçados durante os tempos? Grandes mulheres a frente de seu tempo que você admira e se inspira? Tem sugestões? Vamos conversar! Até a próxima!
Sobre o autor
Viagens de Papel

O blog Viagens de Papel foi criado em 22 de janeiro de 2013 com o intuito de promover diálogo sobre literatura, paixão que todos os autores do projeto têm em comum. Através de resenhas, lançamentos, listas, dicas e variadas matérias, queremos que você sinta-se em casa e aprecie o conteúdo nosso conteúdo! =)



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