domingo, 23 de novembro de 2014


Depois de um longo e tenebroso inverno, pois é meus caros, o nossa cantinho de poesia aqui no blog está de volta com tudo! Para nossa volta, gostaria de conversar um pouco sobre um poema de Manuel Bandeira que fala muito sobre o próprio ato de escrever poemas, o que achei bastante adequado para o nosso momento, espero que gostem!

Poética
“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”
Para contextualizar, este poema está inserido no quarto livro de Bandeira, Libertinagem, considerado por muitos sua melhor obra e momento de grande maturidade de sua produção.


Manuel, com sua simplicidade e manejo da linguagem incomparáveis, aqui faz uma crítica ao modo de escrever dos parnasianos, com seu rigor formal e palavras dicionarizadas, poesia considerada nada natural, completamente plástica. Podemos, inclusive, remeter a crítica que muitos anos atrás D. Dinis fez aos provenciais, que escreviam pelo costume na época da primavera, mas que o amor ali escrito nunca fora realmente sentido, não compondo uma poesia de fato, verdadeira, e sim pela conveniência e/ou obrigação de escrever. (você pode conferir o poema aqui)

 Manuel começa em tom de confissão, dizendo estar cansado daquele lirismo cauteloso e comedido, que não tem frescor, novidade e é repleto de burocracias. Está cansado daquela poesia que, quando está sendo escrita, procura no dicionário a palavra mais rebuscada para provar elocução. Cheio daquele lirismo usado para abarcar os corações das moças, ou lirismo de auto ajuda (como vemos na sexta estrofe a lista de livros de auto ajuda lidos na época).

 Na quinta estrofe, ao falar do lirismo político, raquítico, sifilítico, usa palavras proparoxítonas assim como os parnasianos, porém feias e incômodas, tanto em som quanto significado, provocando o leitor, e seus alvos. Ah, os recursos e genialidade de Bandeira!

 Na sétima estrofe chegamos no ápice da Libertinagem de fato, o tom do poema fica ameno, vemos o que o lirismo realmente deve ser. Livre. Pessoal. Simples.

 Quer-se no Modernismo a poesia espontânea, sendo este um poema, para Mário de Andrade, muito importante ao movimento. Manuel aqui não coloca regras, se não, não falaria em tom de confissão, e sim em imperativos, mas mostra o que acredita, acredita na poesia do sujeito, acredita que ela vem da livre experiência e não está ali para instrumento de ego, provação, convenção. Ela não deve ser forçada.

 Finalizando com a belíssima frase “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”, podemos também finalizar nosso breve texto com uma passagem de Hegel em sua Estética. A poesia é acreditada como um meio de fuga, uma mera evasão, por isso também é constantemente subestimada e não compreendida, porém não, em Hegel vemos que a poesia vê a si mesma como obra de arte, na linguagem tem consciência de si. Sua missão não é libertar o sujeito do sentimento, mas sim libertá-lo no sentimento.


 O que é poesia para você? Para mim também é libertação. Vem conversar comigo, deixe seu comentário! Até a próxima (:

Sobre o autor
Viagens de Papel O blog Viagens de Papel foi criado em 22 de janeiro de 2013 com o intuito de promover diálogo sobre literatura, paixão que todos os autores do projeto têm em comum. Através de resenhas, lançamentos, listas, dicas e variadas matérias, queremos que você sinta-se em casa e aprecie o conteúdo nosso conteúdo! =)


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  1. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Oi, Amanda.
    Gostei bastante do post. Eu nunca fui fã de poesia, já tentei ler mas raramente entendo o que, de fato, elas querem dizer. Talvez seja algum problema comigo.
    O que realmente me incomoda em poesias é ter que ir procurar algumas palavras no dicionario para tentar compreender o que esta sendo dito, e achei bacana Manuel fazer uma critica à isso.

    Beijos.
    Blog Cantar Em Verso

  2. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Oi, Amanda.

    Eu nunca escrevi uma poesia na vida, mas creio que quem escreve e pra colocar em palavras aquilo que ele está sentindo no momento. Entendo como um tipo de libertação também. Não vou falar muito pois, não entendo muito de poesia. Curti seu post e assim irei passar a conhecer mais. >.<
    Ele me fez lembrar do livro Métrica, ele usa muito a poesia e adoro ele.

    http://paradisebooksbr.blogspot.com.br/

    Beijos.

  3. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Muito legal o poema que você postou 😉
    Gosto de ler poesias de vez em quando, é relaxante e as vezes a gente lê e parece que a gente tá SE lendo..eu adoro essa sensação.
    beijoss
    Sublimar-me

  4. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Oi Silvane!
    Que bom que gostou, fico muito feliz (: pois é, os parnasianos, principalmente, faziam muito isso, também é uma coisa que eu não sou muito fã, às vezes fica meio artificial, por isso prefiro mais os modernistas como o Bandeira ^^

    Beijinhos!

  5. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Oi Bruna!
    Sou apaixonada por esse poema, que bom que você gostou! Sim, essa identificação que rola às vezes eu adoro também, mas sou suspeita, amo poesia, muito muito.

    Beijinhos!

  6. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Este comentário foi removido pelo autor.

  7. domingo, 23 de novembro de 2014.

    Oi Paula!
    Oba, que bom que gostou! Ainda não conheço esse livro, vou procurar (:
    Ah, tem mais posts meus de poesia aqui pelo blog, se você quiser conhecer mais ^^

    Beijinhos!

  8. segunda-feira, 24 de novembro de 2014.

    Oi Amanda 🙂
    Já li muito Manuel Bandeira na escola (mais por obrigação, do que por vontade) ..
    Não sou fã de poemas, então é complicado eu gostar de algum! Esse é muito bonito,
    mas não me conquistou ! To precisando ler livros de poesia pra aprender a gostar 🙂
    Beijos :*

  9. segunda-feira, 24 de novembro de 2014.

    Olá Amanda,
    Pra falar a verdade, nunca fui fã de poesias. Acho muito difícil entender, sempre que leio estou com um dicionário na mão. Já escrevi algumas na escola, mas por obrigação…
    Tenho dois livros de poesias e contos aqui em casa, mas só consegui terminar um, pois a leitura se torna arrastante, é uma pena.
    Eu adorei você ter explicado as estrofes do poema! Esse não fez com que eu gostasse de poemas, mas a mensagem que ele passa é muito bonita 🙂
    Beijos

  10. sábado, 29 de novembro de 2014.

    Oi, Amanda!
    Eu nunca gostei muito de poesia e até hoje não entendo o porquê. Várias amigas me indicaram livros de poesias, mas simplesmente não funciona comigo. Mas, por incrível que pareça, eu gostei dessa. Dá realmente pra sentir os sentimentos dele em relação ao lirismo cauteloso e o ato de ''procura no dicionário a palavra mais rebuscada para provar elocução''. Parabéns pela escolha (:

  11. sábado, 29 de novembro de 2014.

    Oi Vitória!
    Tenho certeza que logo você encontra aquele autor que te toca ^^

    Beijinhos!

  12. sábado, 29 de novembro de 2014.

    Oi Vanessa!
    Tem poemas de fato complicadinhos de entender, que bom que você gostou! Tem outros posts meus aqui no blog sobre poesia, se você se interessar ^^

    Bejinhos!

  13. sábado, 29 de novembro de 2014.

    Oi Lais!
    Que bom que você gostou e captou a mensagem do Bandeira, fico muito feliz ^^ Acho que você não deve ter encontrado ainda Aquele poeta, sabe? Mas vale a procura, quando a gente encontra é mágico, assim como o que a gente aprende no caminho! Têm outros posts meus aqui no blog, com outros poetas, dá uma olhada, vê se você gosta de algum!

    Beijinhos!

  14. terça-feira, 2 de dezembro de 2014.

    Esse é um dos poemas do Bandeira que mais gostei, ouvi, li e sei de cor…rs… Principalmente, talvez, pq critica exatamente as coisas que menos gosto (mais odeio) em poesia. Belíssimo texto, analise breve porém eficiente.:)

  15. terça-feira, 2 de dezembro de 2014.

    Oi Pedro!
    Obrigada ^^ continue acompanhando a gente!

  16. terça-feira, 2 de dezembro de 2014.

    Não consigo gostar de poesia, pra mim são palavras sem sentido… rsrs
    Se eu ja acho confuso ler um poema quem dirá escrever….hahahahaa
    mas o post ficou bem legal, quem gosta de poesia é um prato cheio

  17. quinta-feira, 4 de dezembro de 2014.

    Oi Douglas!
    Tem muitas poesias que são super simples e acessíveis, tentar dar uma chance ^^
    Que bom que gostou do post, continua acompanhando a gente!

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