sábado, 18 de outubro de 2014


O poema escolhido é de meu poeta preferido, Carlos Drummond de Andrade, que me inspira, por quem transpiro e respiro todos os dias. Muitos os poemas desde mineiro são especiais e valem ser lidos e ter aqui seu espacinho, mas devido ao caos que anda o Brasil nestes últimos dias acabei escolhendo este poema que vem de “A Rosa do Povo” e que é de uma doçura inigualável, porém extremamente significativo.

O Elefante


Fabrico um elefante

de meus poucos recursos.

Um tanto de madeira

tirado a velhos móveis

talvez lhe dê apoio.

E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.

Amanhã recomeço.


Em um mundo enfastiado, que não crê nos bichos e duvida das coisas, sai um elefante à procura de amigos. Sinto que este mundo desacreditado e duro da década de quarenta ainda persiste. A primeira vista este elefante causa estranhamento. Como um elefante anda nas ruas e é fabricado com madeira e algodão?

A arte traz a ideia de fabricação, onde o real se transforma. A própria poesia é assim, as palavras gastas ganham um significado novo neste processo especial que consiste a escrita. Do reaproveitamento de coisas simples é fabricado este elefante. Sua composição mistura materiais, madeira e doçura, este não é um elefante qualquer, é um ser de caráter puro e verdadeiro – vemos em seu olhar. Ele é frágil, capenga e não consegue sustentar-se muito bem, mas é todo graça andando em meio à guerra.

O elefante sai a procura de amigos neste mundo devido a sua carência, carência esta que se assemelha a do poeta; e passa sem ser percebido, como a poesia sem resposta de outrem. De fato, o elefante é um disfarce do poeta, tímido e impotente, para encarar a hostilidade, a dificuldade de aproximação das pessoas, o drama da ruptura e não do encontro, o próprio drama da pequenez. Quem não possui seus elefantes?

Ao fim, o elefante desmancha-se e vai perdendo sua significação, era o mito onde o mundo seria mais poético, porém acaba por não funcionar. Tudo aponta para o desengano, mas há insistência, “amanhã recomeço”. Mesmo em meio ao caos, indiferença, um dia que se inicia com uma promessa e acaba com a desilusão, nem o elefante, nem seu criador, desistem de sua procura.

Deixo a reflexão para você que leu até aqui. Conte o que sentiu ao ler o poema, o que você achou, quero saber sua opinião (:
Ps.: Você pode ouvir o poema aqui.

Até a próxima (:


Sobre o autor
Viagens de Papel O blog Viagens de Papel foi criado em 22 de janeiro de 2013 com o intuito de promover diálogo sobre literatura, paixão que todos os autores do projeto têm em comum. Através de resenhas, lançamentos, listas, dicas e variadas matérias, queremos que você sinta-se em casa e aprecie o conteúdo nosso conteúdo! =)


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