sábado, 20 de setembro de 2014


A poesia escolhida é de Manuel Bandeira, um dos poetas mais importantes de nossa literatura e grande no movimento modernista. Nascido em Recife no ano de 1886, viveu com a sombra da morte em toda sua vida por conta da tuberculose, muito cedo diagnosticada. Em sua poesia vemos a marca dela, de sua infância e de suas experiências, verdade e simplicidade únicas.

A seguir um poema tirado de “Libertinagem”, livro maduro onde o poeta possuía pleno domínio de sua linguagem e liberdade, como o próprio título já nos adianta.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo

Profundamente.


A memória rege o poema e é essencial. Conta da festa de São João, onde adormeceu em meio à alegria, barulhos e cantigas. Quando então despertou, percebeu que não havia mais festa, apenas um silêncio denso, quebrado pelo ruído do bonde de vez em quando. Ele se pergunta onde foram parar todos; estão dormindo. 

Na segunda parte do poema, ele nos esclarece a situação mais pontualmente. Cria uma ambiguidade onde seu consolo é resposta definitiva da questão inevitável da vida, a morte, retomando lindamente com as mesmas palavras, porém em sentidos completamente opostos.


Este poema, tão doce e certeiro, e que toca na temática “onde estão” com a escolha de palavras impecavelmente adorável, cria uma série de interpretações que dividem opiniões entre os maiores pesquisadores de literatura. O poema apresenta dois tempos, o passado de quando tinha seis anos e o presente, o recordar daquele momento. A questão que fica é, há duas festas de São João ou apenas uma? Quando ele recorda daquele dia de sua infância, seria por força de uma festa ocorrendo naquele momento, ou não?

A ambiguidade certamente não fora proposital, porém deixa o poema cada vez mais vivo, o que de fato é a literatura, sempre aberta para discussões e crítica. A interpretação pouco importa, há embasamento para as duas, o importante é perceber a delicadeza, a sensibilidade e a singeleza não só deste poema, mas de toda a obra deste poeta mais que magnífico de nossa literatura.

A ambiguidade te interessou? Leia o ensaio de Davi Arrigucci “Humildade Paixão e Morte” e veja uma das linhas de interpretação deste poema.

O que você achou ao ler o poema? Conte tudo nos comentários, vamos conversar!
Sobre o autor
Viagens de Papel O blog Viagens de Papel foi criado em 22 de janeiro de 2013 com o intuito de promover diálogo sobre literatura, paixão que todos os autores do projeto têm em comum. Através de resenhas, lançamentos, listas, dicas e variadas matérias, queremos que você sinta-se em casa e aprecie o conteúdo nosso conteúdo! =)


Deixe uma resposta

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: