sábado, 16 de agosto de 2014


A poesia escolhida para hoje é de Ferreira Gullar, um dos poetas brasileiros vivos mais influentes. Nascido em 1930, participou do movimento da poesia concretista e, sendo do Partido Comunista, foi resistência nos tempos de ditadura. O poema escolhido foi tirado do livro Na Vertigem do Dia, de 1980, sua aguardada volta após o exílio.

Traduzir-se
 
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
 
Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.
 
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.
 
Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
 
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.
 
Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem
 
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 

 
Sendo este um poema muito simétrico, ele toca na problemática do ser poeta. O poeta dá forma ao que não possui forma, o que é íntimo do ser; a poesia atende ao sentimento, faz o indivíduo que lê compartilhar a voz do outro, ou seja, do poeta.

Gullar sempre coloca os dois lados neste poema, o do ser e o do poeta, que coexistem. Por um lado ele almoça e janta, permanece, é passivo, comum; do outro, ele é inconstante, só, sensível e tem a responsabilidade de falar pelo outro. Ele funde estes seus dois lados e no fim, acaba em vertigem, se torna linguagem tirando da vida a sua poesia, sua linguagem, sua voz.
 
Você acha que é arte? Não esqueça de deixar seu comentário e dizer o que achou!
Sobre o autor
Viagens de Papel O blog Viagens de Papel foi criado em 22 de janeiro de 2013 com o intuito de promover diálogo sobre literatura, paixão que todos os autores do projeto têm em comum. Através de resenhas, lançamentos, listas, dicas e variadas matérias, queremos que você sinta-se em casa e aprecie o conteúdo nosso conteúdo! =)


Deixe uma resposta

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: